Pela primeira vez, o Brasil iniciará a pesquisa de uma nova droga contra o câncer de mama, Estado Unidos e Europa iniciarão a seguir. O medicamento é denominado Atezolizumabe, conforme informa José Luiz Pedrini, chefe do Serviço de Mastologista do Hospital Conceição e pesquisador.
”O medicamento Atezolizumabe tem o potencial de atingir diretamente as células cancerosas e de ser pouco agressivo ao organismo das pacientes. É uma substância produzida a partir de anticorpos, é segura e passou pelas etapas de testes antes de ser liberada para uso em humanos”, explica Pedrini.
Como se trata de um tratamento experimental em câncer de mama tem que ser observadas as reações ao tratamento. “O medicamento é para pacientes que apresentam um tipo de tumor chamado triplo negativo”, observa o especialista, que ressalta também ser este tipo de tumor o mais ‘anárquico’, entre os demais, como os tumores hormônio + e o Her-2 positivos sendo, portanto, o triplo negativo o mais difícil de tratar.
Medicamento produzido a partir de anticorpos
Segundo Pedrini, o medicamento é um anticorpo, uma espécie de uma vacina, que vai atuar na célula com o câncer. As células tumorais possuem mecanismos de defesa, um tipo de proteína chamada PD-L1. Esse fator de proteção dos tumores impede a ação dos linfócitos T, que são os mecanismos de defesa das células saudáveis. Como os linfócitos não conseguem destruir o tumor, por conta do bloqueio exercido pela PD-L1, o tumor segue crescendo sem parar. O Atezolizumabe tem em sua composição anticorpos que agem no bloqueio dessas células de defesa dos tumores. Sendo assim, com os tumores impedidos de se defender, os linfócitos conseguem agir normalmente. “Esse anticorpo vai atuar no PD-L1, bloqueando-o e deixando o linfócito T destruir o tumor”, finaliza o médico.
O Atezolizumabe pode ser administrado em qualquer fase do tratamento do câncer triplo negativo. As pacientes recrutadas neste estudo continuarão recebendo a quimioterapia, que é o tratamento padrão nos casos de câncer. Porém, uma parte delas, receberá também a nova substância. A aplicação do medicamento é feita por meio de duas injeções a cada duas semanas.
“Em todos os demais países terão pacientes sendo tratadas, os resultados serão comparados entre aquelas pessoas que só fizeram o tratamento convencional e aquelas que, além do convencional, administraram essa nova substância de anticorpo. Se esse braço que usou o anticorpo for bem melhor, aí ele é incorporado ao tratamento. Uma fase seguinte é começar a substituir a quimioterapia só pela medicação”, comenta Pedrini, que também ressalva que a eliminação da quimioterapia só seria possível considerando o sucesso do Atezolizumabe, pelo menos após cinco anos de testes.
Como acessar a pesquisa
O estudo está aberto para pacientes com câncer de mama triplo negativo, com doença avançada ou localizada. Existe uma equipe que trabalha com Pedrini no centro de pesquisa Instituto de Medicina, Pesquisa e Desenvolvimento. No Hospital Conceição, em Porto Alegre. Depois dos testes em pacientes, são publicados os resultados em revistas especializadas na área de Medicina. Essa etapa, chamada pesquisa clínica, faz parte da elaboração da bula do medicamento.
“No futuro breve, esperamos que a quimioterapia tradicional seja somente utilizada para casos especiais e possamos usar somente as terapias alvo, poupando as pacientes dos tratamentos que agridem todo o organismo. O tratamento de mulheres com câncer de mama ganha mais um importante aliado tanto na efetividade quanto na qualidade de vida”, avalia o pesquisador.