O câncer de mama é a maior causa de morte em mulheres entre 15 e 49 anos, tem 58 mil novos casos por ano no Brasil, com 13 mil mortes. No Rio Grande do Sul são 5.500 casos, com mais de 1.100 mortes por ano. A conscientização é muito importante para se conseguir tratar as mulheres na fase inicial da doença, onde a cura chega a 95%. O tratamento depende da fase do câncer, podendo envolver quimioterapia, radioterapia e cirurgia.
Se necessária cirurgia, após o procedimento a mulher utiliza um equipamento chamado portovac. É um compartimento de grande proporção que fica exposto. É um dreno que aspira a secreção que sai da região axilar ou mamária que foi operada.
Esteticamente é um equipamento de mau aspecto, pois deixa visível a secreção, e fica pendurado à paciente, tendo que ser utilizado de 10 a 15 dias, dependendo do que drena e do volume que drena. O dreno fica de uma maneira muito exposta, já que tem que ser segurado enquanto a paciente anda ou pratica qualquer atividade, limitando os movimentos dos braços. Além de antiestético, as pessoas que não conhecem acabam olhando e deixando a paciente desconfortável com a situação.
Patrícia Rabello, médica residente do Serviço de Mastologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), teve a iniciativa de criar uma bolsinha de pano para carregar o portovac. A ideia se deu a partir da doença da própria mãe, que, durante seis anos, lutou contra o câncer de mama. O Serviço de Mastologia onde a mãe de Patrícia fez o tratamento, enquanto ainda moravam em Santa Cataria, observou a bolsinha feita pela filha, achou prático e funcional e começou a produzir para as demais pacientes.
Quando a médica residente se mudou para o Rio Grande do Sul e começou a trabalhar no Hospital Conceição, sugeriu a uma paciente que comprasse ou fizesse uma bolsinha para carregar o dreno. A paciente então produziu e utilizou durante a recuperação, quando deixou de ser necessário ela trouxe a bolsa para o hospital e mais uma para entregar às pacientes que precisavam. As voluntárias do Grupo da Mama Conceição ao verem gostaram da iniciativa e produziram várias para doar ao hospital, devido a isso, o serviço passou a ter bolsinhas para emprestar às pacientes.
Em razão do número limitado, no final do tratamento, as pacientes retornam ao hospital para tirar o dreno e entregam as bolsinhas para as futuras pacientes poderem usar. A bolsa serve para acomodar o dreno, além de facilitar o movimento dos braços, não cansa a paciente e mantém a discrição do equipamento. “Traz dignidade a elas, uma bolsa para mulher não é problema, agora um dreno exposto é uma coisa ruim”, diz Patrícia.
Trabalho voluntário
Noeli Maria Magalhães Melgareco, técnica de enfermagem da Sala de Recuperação do HSNC, sensibilizada por uma paciente jovem que estava com uma bolsinha simples, feita com restos de camiseta e que teria que devolver após a recuperação, começou a produzir bolsas que poderiam ficar com a paciente.
Também artesã, Noeli dispunha de sobras de tecido, que utilizou para criar diversas bolsinhas no seu tempo livre. "Dei uma incrementada porque minha ideia era que elas não precisassem devolver, que ficasse como um mimo, algo que elas pudessem usar depois, em uma caminhada por exemplo, sem ter que devolver, até mesmo por questão de higiene", diz Noeli.
O chefe da Mastologia do Hospital Conceição, José Luiz Pedrini, ressalta a importância de uma funcionária que, além de cumprir sua tarefa, ainda se preocupa com o bem-estar das pessoas que se tratam na instituição. “O nosso serviço entende que o exercício da cidadania é capaz de modificar a atitude de um povo, cada um fazendo sua parte. Sempre enfatizamos que estas atitudes um dia beneficiarão você ou sua família”, comenta Pedrini.
Apoiada pela chefia, a técnica de enfermagem produziu 19 bolsinhas feitas de tecido de algodão. Algumas aplicações com figuras ou detalhes bordados deixam o trabalho mais divertido. Todo material produzido é feito com sobras dos tecidos de artesanato, ou seja, é totalmente doado, um trabalho voluntário.
Patrícia conta que o carinho e o capricho de Noeli nas bolsas é uma atitude muito nobre.
"Se doar para o outro e se sensibilizar por uma causa que teoricamente não é dela, porque ela não é diretamente da equipe da mama, mas doou seu tempo, dinheiro e material para contribuir com essas pacientes, é algo a ser valorizado", conta.
Noeli diz que seu objetivo é fazer com que mais pessoas se engajem e se contaminem com essa ideia de ir além. "Sempre é possível ajudar, muitas vezes, não é algo difícil de fazer, a ajuda pode vir de várias maneiras. Está me fazendo muito bem, ajuda as pacientes, mas me ajuda também", concluiu.
Créditos: Taina Flores