Com o objetivo de qualificar a assistência por meio da capacitação a todos os profissionais que interagem com as pacientes, bem como difundir a existência da referência do Hospital Fêmina (HF) para esse tipo de atendimento multiprofissional, foi realizado nessa quarta-feira, 21 de março, no Auditório Jahyr Boeira de Almeida, no Centro Administrativo do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), o terceiro encontro do Seminário Mulheres Vítimas de Violência Sexual: Qualificando a Assistência.
A mesa de abertura contou com a presença do diretor administrativo e financeiro do GHC, José Ricardo Agliardi Silveira, do gerente de Internação do HF, Eduardo Neubarth Trindade, e da gerente de Administração do HF, Denise Maria Jornada Braga. "Nós homens precisamos nos envolver mais nas causas das mulheres", destacou o diretor do GHC sobre a importância do evento e parabenizou o protagonismo do Hospital Fêmina neste mês em que diversas ações estão sendo realizadas. Agliardi enfatizou a qualidade das palestras e a grandeza do evento e apontou como "agressão às mulheres, à democracia e à república" o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, executada na semana passada no Rio de Janeiro.
Com condução da gerente de Administração do HF, Denise Maria Jornada Braga, o evento teve a primeira fala da promotora de Justiça Ivana Battaglin. Atualmente designada promotora de Justiça de Violência Doméstica de Porto Alegre, Ivana é membro da Comissão Permanente de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Grupo Nacional de Direitos Humanos do Ministério Público. Em sua fala, a promotora trouxe uma abordagem histórica sobre a violação dos direitos humanos das mulheres. A partir da apresentação de códigos religiosos, da ciência e da legislação, Ivana apresentou a construção da lógica da sociedade patriarcal. "Nós mulheres reproduzimos o machismo, muito embora isso não nos favoreça. Nós ensinamos isso aos nossos filhos e filhas e reproduzimos isso com as nossas companheiras, quando nós deveríamos exercer a sororidade" falou a promotora. "Nós somos criadas dentro do sistema patriarcal, treinadas para nos detestarmos, sermos competitivas e desconfiarmos umas das outras. Um sistema perfeito para manter o patriarcado vigente", pontuou Ivana.
Segunda fala da manhã, a vereadora Comandante Nádia Rodrigues Silveira Gerhard apresentou dados sobre a violência doméstica no Brasil a partir da experiência de atuação junto à Lei Maria da Penha. Parlamentar desde 2016, Nádia foi eleita Procuradora Especial da Mulher na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Em 2012, ainda como comandante do 19º BPM da capital, foi responsável pela implementação e coordenação da Patrulha Maria da Penha, projeto pioneiro em âmbito nacional que visa fazer cumprir as medidas protetivas de urgência, protegendo as mulheres vítimas de violência doméstica.
Responsável pela articulação entre a Câmara de Vereadores e o Grupo Hospitalar Conceição, a vereadora falou também da importância de unificar a atenção à mulher vítima de violência. "A parceria com o Hospital Conceição, com o Fêmina e com o Cristo Redentor é importantíssima porque muitas vezes a primeira porta que a mulher vítima de violência doméstica chega é no hospital. E muitas vezes, essa mulher que procura a área da saúde deixa de procurar a polícia. E são dados que nós não temos. Elas não são contabilizadas na questão da violência", explicou a comandante.
Titular da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Porto Alegre (1ª DEAM), a delegada Tatiana Barreira Bastos trouxe dados da violência a partir de aspectos legais e fluxo de atendimento. A 1ª DEAM de Porto Alegre foi inaugurada em 1988. Localizada no Palácio da Polícia, a delegacia tem funcionamento em regime de plantão, 24 horas por dia. Com 28 servidores, a unidade registrou 11.373 ocorrências em 2017. A média é de 40 atendimentos por dia em 2018, com 150 solicitações de medidas protetivas de urgência por semana.
Subcoordenadora das delegacias de Atendimento à Mulher do Estado do RS, Tatiana lembrou na última fala da manhã que a Lei Maria da Penha visa tutelar as mulheres onde elas estão ainda mais vulneráveis. "Enquanto os homens são mais vítimas de violência urbana, nas suas relações e nos espaços de convivência públicos, as mulheres, segundo as estatísticas nos mostram, sofrem a maior parte das violências dentro de casa", apontou a delegada. "Por isso, que a lei não é discriminatória. Ela traz uma discriminação dita compensatória, que visa nivelar relações historicamente assimétricas". A delegada ainda lembrou que a Lei Maria da Penha ampara mulheres transgênero ou transexual.
À tarde, a segunda parte do seminário foi reservada para mesas-redondas com profissionais do HF. Participaram da primeira mesa a enfermeira Mônica Vanessa Ochôa, que trouxe informações sobre o acolhimento e fluxo de atendimento no HF. O infectologista Mário Ferreira Peixoto falou sobre o tratamento de profilaxia pós-exposição e a ginecologista Carolina Pereira falou sobre o processo de aborto legal. A segunda mesa trouxe o psiquiatra Giovani Gheno, a assistente social Marli Silveira e a psicóloga Flávia Azevedo, que abordaram os aspectos de atendimento às mulheres no âmbito da assistência social e psicológica pelo HF.
Promovido pela Comissão de Assistência às Mulheres Vítimas de Violência do Hospital Fêmina em parceria com a Procuradoria da Mulher da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, o encontro reuniu além de funcionários do GHC, ativistas dos direitos das mulheres e formadores de opinião entre elas a jornalista Regina Perondi.
A gerente de Administração do Hospital Fêmina se mostrou satisfeita com a realização do encontro ainda que não tenha sido possível atender a demanda total de interessados. Mas lembrou que o próximo seminário está previsto para maio deste ano.
Créditos: Bruno de Barros.