O seminário “Como chegar antes do adoecimento psíquico”, realizado no dia 22 de junho, no Auditório Jahyr Boeira de Almeida e organizado pela Gerência de Saúde Comunitária, teve como objetivo central trazer reflexões para os trabalhadores sobre outras estratégicas do cuidado, mais voltadas à prevenção e promoção da saúde e da vida.
Chegar antes é cuidar do humano, é ter a sensibilidade para perceber o outro vulnerável e colocar nosso saber, experiência e energia a favor da vida.
Chegar antes é estar perto daquelas condições do cotidiano onde existem forças que logo ali ganharão potência e se transformarão em problemas de saúde, por algum tipo de trauma, ruptura, desequilíbrio, perda da autonomia e de força de si, que geram sintomas físicos e alteração de humor, entre tantos outros.
Chegar antes é ampliar o olhar e compreender os processos de vida dos usuários relacionados às condições de vulnerabilidade cultural, econômica, social e pessoal como a pobreza, a baixa escolaridade, a frágil rede de apoio familiar e sanitária. Também a exposição a situações de violência ou abuso físico ou moral, observados mais em ambientes de consumo exagerado de álcool e outras drogas, principalmente o crack, como ocorre nos nossos cenários de práticas em saúde, na Zona Norte de Porto Alegre.
Chegar antes é captar e avaliar àquelas condições subjetivas, que escapam do domínio da razão e que passam pelos desejos, sonhos, devires e sentimentos ruins como a angústia existencial, o vazio, a solidão, a desvalia, a rejeição e o abandono.
Chegar antes, no plano do cuidado na atenção básica e primária é deslocar o eixo central do cuidado da pessoa para a família, que representa o espaço inter-relacional de produção de amor, mas também de relações autoritárias e abusivas.
Porém, cabe ressaltar que este tema é um grande desafio, remete à mudança de cultura, pois é preciso no trabalho profissional se desvencilhar daqueles aprendizados, desde os bancos escolares e acadêmicos, hegemonicamente focados na doença, compreendidos puramente como disfunções biológicas dissociadas das diferentes dimensões do viver e sua complexidade.
Por outro lado, vivemos uma experiência do viver contemporâneo onde as incertezas, a falta de solidariedade, o individualismo, a falta de alteridade, as guerras, o desrespeito às diferenças e, na nossa realidade, pelas grandes desigualdades sociais, a população pobre apresenta cada vez mais urgência para situações de cuidado em saúde de modo geral, o que demanda muito tempo do trabalho profissional no aqui e agora. E o chegar antes implica num trabalho mais reflexivo, estratégico, de produção de conhecimentos na perspectiva da promoção da educação cultural, principalmente da saúde. Mas, investir na prevenção e na promoção é cuidar da vida das pessoas, algo afetivo, responsável, singular, mas antes de tudo é um compromisso ético!
Por Luiz Ziegelmann - Médico Psiquiatra da Gerência de Saúde Comunitária - GHC
Créditos: Guilherme de Faveri (foto)