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21.08.2018 AGOSTO DOURADO

Por que precisamos falar muito sobre amamentação

Em artigo, a coordenadora do Programa de Atenção Materno-Infantil e Obstétrica da Residência Multiprofissional em Saúde do Grupo Hospitalar Conceição e coordenadora Grupo de Incentivo ao Aleitamento Materno HNSC/HCC/SSC, Dinara Dornfeld, aborda os desafios do aleitamento materno

Se o aleitamento materno é o melhor alimento para a criança, protegendo-a contra várias infecções e alergias. Se para a mulher ele previne a hemorragia pós-parto e funciona como fator protetor para o câncer de mama e colo do útero. Pressupõe-se então que esses seriam motivos suficientes para que a amamentação sempre se estabelecesse e tivesse continuidade. Entretanto, muitas vezes, a amamentação não se concretiza.

De fato, é preciso compreender que amamentar não é algo puramente racional, ou visto de outro modo, instintivo, afinal somos mamíferos. O desejo da mulher de amamentar e as condições que lhe possibilitam manter a amamentação são permeados por diversos desafios que envolvem aspectos culturais, sociais, emocionais e de aprendizado.

As influências sócio-culturais na amamentação se manifestam pelas crenças e mitos sobre o aleitamento materno que, ao longo de muitos anos, passaram a constituir o imaginário popular, sendo culturalmente aceitas como verdades. Podem-se destacar as alterações na estética corporal da mulher, a dor para amamentar, a extrema dependência da criança que mama no peito e a falta de liberdade da mulher em função da amamentação frequente. A isso, soma-se a suspeita sobre o leite fraco ou insuficiente, estrategicamente apropriada pelo marketing das empresas dos substitutos do leite materno a fim de propagandear as vantagens do leite em pó em detrimento da amamentação.

Referente a tais alegações, os inúmeros estudos da atualidade atestam que nenhuma delas apresenta sustentação e já não há dúvidas quanto à supremacia do leite materno, o qual deveria ser exclusivo até os seis meses de idade da criança e complementado até os dois anos ou mais. Todos esses esclarecimentos teriam de ser abordados pelos profissionais de saúde com a mulher durante o planejamento reprodutivo, pré-natal e após o nascimento do bebê.

Superadas as questões de carência ou distorção de informações e estando a mulher decidida pela amamentação, é possível que ela enfrente alguma dificuldade no início do aleitamento materno, visto que amamentar envolve um aprendizado tanto da mãe quanto do bebê. A mãe precisa aprender a encontrar posições confortáveis para ela e o bebê e que favoreçam a ele a busca e pegada do seio materno. O bebê, por sua vez, precisa aprender a abocanhar adequadamente o seio materno, para assim conseguir sugar e retirar eficientemente o leite.
Do contrário, é possível que o seio materno fique dolorido e também que o bebê não se alimente adequadamente. Esta situação pode angustiar a mãe, levando à desistência da amamentação. Nestes casos, o apoio dos profissionais de saúde é fundamental para que, juntamente com a mulher, sejam identificadas e resolvidas eventuais inconformidades que possam estar dificultando a amamentação.

Outro desafio imposto à mulher que amamenta é a defesa de sua opção frente aos familiares e pessoas do seu convívio. Como já foi dito, crenças e mitos sobre a qualidade do leite materno estão habituados em nossa cultura. Neste contexto, frequentemente a mulher que está amamentando exclusivamente ao seio materno se vê em situações de ter de estar justificando que seu leite é suficiente, não é fraco, o choro do bebê não é por fome, o bebê não precisa de água ou “chazinho” e nem de chupeta para se acalmar.

Ainda nessa linha de defesa pela escolha do aleitamento materno exclusivo, a mãe também pode encontrar profissionais de saúde que, por desatualização ou até mesmo por conceitos pessoais, assumem posicionamentos ortodoxos de controle do ganho de peso do bebê e sugerem a “complementação” com fórmula Láctea, quando, na verdade, deveriam dedicar um pouco mais de tempo para discutir com a mãe como a amamentação está evoluindo, inclusive com uma observação da mamada, para certificar-se de que realmente o posicionamento e a pega do seio pelo bebê estão corretos e a sucção está efetiva.

Ao se ponderar a cerca das considerações aqui colocadas, onde a cultura de desvalorização da amamentação ainda é significativa e a motivação materna para amamentar é perpassada, muitas vezes, pela falta de apoio e incentivo, tanto da rede familiar quanto dos serviços de saúde, entende-se que há muito que falar sobre amamentação.

Neste sentido, a Semana Mundial do Aleitamento Materno - e o Agosto Dourado no Brasil – faz parte de um movimento mundial para promoção da amamentação. Durante este período, são intensificadas ações de conscientização e esclarecimento junto aos profissionais de saúde e à sociedade em geral sobre a importância do aleitamento materno, assim como os meios que favorecem a sua efetivação.

Créditos: Dinara Dornfeld (texto) e Aline Schwalm Andrade Rates (foto)