Foi realizado nessa quinta-feira, 3 de outubro, em frente ao Hospital Conceição, encontro e confraternização do Grupo Ateliê Jardim de Histórias. Ao longo do dia, pacientes do Serviço de Dor e Cuidados Paliativos que frequentam o Ateliê deram uma mostra do trabalho realizado durante os encontros do grupo. A cada encontro, e com frequência quinzenal, esses pacientes são reunidos em volta de uma mesa, sob coordenação de integrantes do Núcleo de Psicanálise, Educação e Cultura (NUPPEC/UFRGS) e de artistas do coletivo A Carroça, para bordar uma toalha, além de conversar sobre suas histórias.
A arte de tecer-com, vinda da Arte Contextual e a psicanálise são os norteadores do projeto criado por pesquisadores do NUPPEC, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faced/UFRGS), Claudia Bechara Fröhlich e Janniny Kierniew em conjunto com o Serviço de Dor e Cuidados Paliativos do Hospital Conceição (HNSC). "A gente não imaginava que, a partir da reunião em torno da toalha, as pessoas iriam se envolver tanto em contar e registrar na toalha histórias, fortalecendo, assim, laços entre si. Foi uma surpresa e vitória ter essas pessoas de volta para um novo encontro e participação do projeto voluntariamente", conta a psicóloga e professora da Faced/UFRGS Claudia Bechara Fröhlich.
O projeto foi inspirado em outras duas experiências: os projetos Arte na Espera, desenvolvido no Núcleo de Saúde do Adolescente do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG), em parceria com o Instituto Undió, e Armazém de Histórias Ambulantes, armado numa espécie de banca ambulante, uma carroça, que circula pelas ruas de Porto Alegre .
Iniciado como uma pesquisa em projeto de extensão universitária, o grupo se dedicou a conhecer a realidade do hospital para então propor uma ação junto aos pacientes. Após período de dois anos de escuta no hospital, o Ateliê Jardim de Histórias foi formalizado como projeto-piloto em setembro de 2017, tendo sido previamente aprovado pelo Comitê de Ética do HNSC.
"Foi no Setor de Dor e Cuidados Paliativos que nosso grupo encontrou um espaço para armar o trabalho, a estação necessária para que pudéssemos nos situar num mapa de pesquisa. O setor abriga um conjunto de ações que promovem estratégias sobre modos de conduzir uma equipe para acompanhar os pacientes e seus familiares em situações em que a medicina encontra seu limite de cura. Por lidar com o manejo de complicações de sintomas e com a perspectiva do término da vida, são considerados diferentes aspectos de formação e tratamento, situados em diversos campos do saber. A escolha por erguer uma estação de pesquisa nesse setor tem relação com o trato multidisciplinar e com a abertura que essa equipe do hospital possibilitou tanto no que diz respeito à formação dos profissionais quanto em relação às modalidades de tratamento dos pacientes", relatam as psicólogas ao lado de uma das coordenadoras do NUPPEC Simone Zanon Moschen no artigo "As narrativas ficcionais na Dor e Cuidados Paliativos: a construção do Ateliê Jardim de Histórias", em que narram os passos de elaboração do trabalho. O texto está disponível no volume 22 nº1 da revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar. (acesso para download do artigo completo no link ao final do texto)
Do projeto teve fruto o grupo de mesmo nome, que se reúne para tecer e trocar histórias. Além da parceria UFRGS e GHC, o projeto conta com a participação do Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre, com o apoio da artista Ana Flávia Baldisserotto. "A reunião do grupo envolta de uma mesa para tecer abre a possibilidade de criar condições de escuta e espaço de liberdade para o compartilhamento de histórias de vida", explica a psicóloga e doutoranda em Educação da Faced/UFRGS Janniny Kierniew.
A ação, aponta a enfermeira Nára Azeredo, tem relação com a filosofia que é disseminada pelo Serviço de Dor e Cuidados Paliativos da instituição, "que é de devolver ao paciente o protagonismo da sua vida e controle do seu tempo", explica a profissional do serviço.
Créditos: Bruno de Barros