Desde o início da tragédia ambiental que assolou o Rio Grande do Sul, a direção do Grupo Hospitalar Conceição buscou auxiliar os cerca de 3.700 funcionários atingidos de alguma forma pelas cheias. Uma das preocupações principais foi realizar o acolhimento destas pessoas e fazer o levantamento das necessidades. “Criamos um formulário para facilitar a comunicação com os trabalhadores e entender o tipo de suporte que deveríamos prestar”, salienta a gerente de Gestão de Pessoas, Lisiane Viera.
O grupo de trabalho estruturado pela GGP/GHC constatou, em primeiro lugar, a necessidade de reunir doações para distribuir às vítimas da catástrofe ambiental. Os donativos foram arrecadados nos quatro hospitais do GHC e, posteriormente, a partir da segunda semana de maio, centralizados no prédio administrativo para distribuição. Depois, ficou evidente a demanda por suporte psicológico aos funcionários.
SUPORTE PSICOLÓGICO
A psicóloga Virgínia Carmona explica que, com o preenchimento dos formulários, foi constatado que muitos empregados gostariam de conversar e de serem acolhidos de alguma maneira. Por isso, foi criado um grupo de trabalho de escuta e acolhimento. “Eu, por exemplo, numa ação conjunta com as assistentes sociais da Saúde do Trabalhador dos três hospitais, atuei na triagem”, relembra. O objetivo era identificar a necessidade de atendimento a longo prazo.
O grupo de acolhimento organizado pela GGP e pela GTED também inclui trabalhadores dos quatro hospitais do GHC. Em nome do Serviço de Psicologia do Hospital Cristo Redentor (HCR), a psicóloga Estefânia Zanatta explica como foi este primeiro contato com os atingidos pelas enchentes. “Primeiro, transformamos uma atividade que já estava prevista - o PsiConVida - em um espaço de acolhimento aos trabalhadores”, relata.
Na mesma semana, com o alojamento dos funcionários no hospital, por estarem impossibilitados de voltar para casa, foi realizada a abordagem inicial aos abrigados. Depois, começou o suporte psicológico, propriamente dito, numa ação integrada com as equipes de Saúde do Trabalhador. “Mesmo com as diferenças de contexto, a comparação com o cenário da pandemia é inevitável, porque houve sobrecarga diante da necessidade de reorganização dos serviços, o que exigiu muita resiliência dos profissionais”, salienta.
Em relação ao Hospital Fêmina, a psicóloga Myléne Geiger destaca que a importância deste serviço de suporte é dar continência ao sofrimento e à angústia das pessoas. De acordo com ela, uma das principais preocupações dos afetados pelas cheias foi a manutenção dos empregos, diante das dificuldades de deslocamento até o trabalho, além da devastação emocional por terem as casas invadidas pela água.
O psicólogo do Hospital Criança Conceição Otávio Morais, que também faz parte do grupo de apoio aos trabalhadores do GHC, relata que muitos colegas ficaram ilhados, tanto no hospital, quanto em casa. “O clima era de nervosismo e tensão, mas a vontade de ajudar de alguma forma prevaleceu”, comenta. Ele relata que o trabalho foi gratificante. “Na medida em que os atendimentos eram realizados, percebemos um estado emocional de alívio, por poderem falar sobre o que estava acontecendo com alguém dedicado a ouvir”, observa.
A partir desse acolhimento inicial, o GHC mantém estruturado um grupo de trabalho que permanece em contato com os trabalhadores e identifica a necessidade de um olhar especializado e de atendimentos individuais. “Nós estamos lotados em todos os hospitais do Grupo e em alguns serviços da rede de saúde”, explica Morais. Na mesma linha, a gerente de Gestão da GGP, Lisiane Vieira, esclarece que o próximo passo é estruturar uma Política de Saúde Mental, voltada ao conjunto dos empregados.
TRABALHO RECONHECIDO
Entre os trabalhadores acolhidos, o integrante da cozinha do Hospital Nossa Senhora da Conceição e morador de Eldorado do Sul Tobias Cruz Padilha relata a importância do apoio que recebeu. “O suporte que recebi foi direto e humano e fez muita diferença neste momento”, comenta. Já a trabalhadora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística (SAME) do GHC Viviane Palavro conta que soube do grupo de apoio por meio da GGP. “Fui atendida de forma virtual, porque estava na casa de parentes, e considero o atendimento que recebi essencial para o momento que estava vivendo”, relembra. Apesar do sentimento de impotência e desesperança diante da tragédia, ela conta que, com o suporte psicológico, sentiu-se pertencente a algum lugar. “Não estava apenas com meu esposo e meu filho no meio do nada, tinha alguém olhando por nós”, explica.