Desde o mês de maio, está em funcionamento, no Hospital Criança Conceição (HCC), o protocolo de atendimento para pacientes no espectro autista, que busca priorizar o atendimento para estes usuários. A identificação é feita por meio do sistema eletrônico, com a inclusão do símbolo de um quebra-cabeças junto ao nome do paciente, colocando-o no topo da lista de atendimento dentro da classificação de Manchester. Neste projeto de acessibilidade às pessoas com deficiência (PCDs), está sendo desenvolvido um espaço multissensorial, que busca reduzir estímulos sonoros, proporcionando conforto ao paciente e sua família.
A coordenadora de Hotelaria do HCC, Vanessa Bonilha, explica que a ideia surgiu quando uma mãe procurou a instituição para conversar sobre a legislação e a necessidade desse atendimento adaptado para o paciente com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A partir deste momento, buscando cobrir todas as áreas do hospital, foi criado um grupo com trabalhadores da Gerência de Administração, Gerência de Internação, Coordenação de Enfermagem e Ambulatório para pensar e organizar esse processo de atendimento.
A gerente de Internação do HCC, Laís Garcia, explica que situações específicas podem desencadear um gatilho no paciente autista. "Às vezes, ele vai chegar bem tranquilo, mas a espera pode mudar o quadro, por isso, não pode ficar muito tempo aguardando atendimento, sob o risco de se descompensar", esclarece. Quando isso ocorre, segundo ela, a mãe ou o acompanhante pode ficar nervoso, prejudicando o atendimento. “A emergência do HCC, por exemplo, é um lugar movimentado, tem criança correndo, falando alto e muitos estímulos, o que gerava algumas queixas de familiares", complementa.
Para a equipe envolvida, a principal importância desta ação é, além de seguir a legislação, mostrar que o usuário tem voz e impacto dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Em busca de um atendimento mais humanizado, Vanessa Bonilha conta que, no dia 20 de junho, começaram as capacitações para a equipe de saúde e para o administrativo, a respeito do protocolo que vem sendo implantado para o atendimento de pacientes TEA.
FAZENDO A DIFERENÇA
Veridiana Couto Vieira, mãe do menino Saimon, conta como o protocolo pode fazer diferença na rotina dos dois. “Uma vez, há cerca de cinco anos, viemos aqui para consultar, e o hospital estava bem cheio e barulhento, o que gerou uma crise nele", lembra. Ela relata que o filho saiu correndo e acabou, felizmente, sendo contido por um trabalhador do hospital. "Eu agradeci muito pela sensibilidade da pessoa que estava ali naquele dia”, relata.
Hoje em dia, com o protocolo em andamento, é possível controlar situações como essa, já que está sendo estruturado um local para evitar desconforto para as famílias. “Ter um espaço dedicado a nós é maravilhoso, pois mostra que existe sensibilidade e preocupação em nos acolher, já que o barulho e luz incomodam muito", diz Veridiana.
O RELATO DE UMA MÃE ATÍPICA
“Percebemos que havia algo diferente desde quando ele era bem novinho. No playground, era como se as crianças ao redor dele não existissem. Em uma ocasião, observamos que arrancaram os brinquedos da mão dele e não havia nenhum tipo de reação da parte dele. Outra vez, fomos ao shopping e lá era impossível a situação. Entramos por uma porta e saímos pela outra, porque ele gritava muito. Queria sair e estar na rua, mas era difícil com tanta gente ao redor. A gente se incomoda com os olhares críticos, de acharem que a criança é mimada ou fresca. Então, precisamos aprender a lidar com isso. Eu leio muito a respeito, procuro tudo que possa me auxiliar a enfrentar essas situações. Desde cedo, buscamos apoio psicológico para nosso filho. Tentamos sempre tudo o que é bom para ele e, quando existe um lugar assim que acolhe, é maravilhoso." Veridiana Vieira, mãe de Saimon.
Créditos: Marianna de Azevêdo