Com quase 40 anos atuação, o Serviço de Dor e Cuidados Paliativos do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) tem o desafio de aprimorar seus atendimentos e qualificar cada vez mais a assistência aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado paliativo representa o zelo com pessoas portadoras de doenças graves e progressivas em que não há possibilidade de cura. O trabalho consiste não somente em tratar sintomas, mas assegurar dignidade, em uma ação que abrange também os familiares. “O suporte à família é fundamental, porque o processo de adoecimento traz várias implicações para todos que têm envolvimento com o ato de cuidar”, reforça a assistente social Fernanda Brenner. No último ano, o serviço registrou 741 internações.
A enfermeira do Serviço de Dor e Cuidados Paliativos Nára Azeredo explica que o trabalho é muito mais abrangente do que a parte técnica. “Cuidamos de modo a acolher e dar um sentido ao sofrimento”, salienta. Além de atender a internação e o ambulatório, também são assistidos os usuários encaminhados por outras equipes do GHC. A Unidade de Cuidado Paliativo conta com 16 leitos próprios, e o serviço abrange toda a rede de saúde. Nára ressalta que a equipe também trabalha com consultorias, auxiliando outros setores do Grupo a realizar o atendimento a estes pacientes. No período de um ano, foram realizadas 2.205.
SUPORTE À ESCOLHA
Entender os processos e os ciclos faz parte da assistência do cuidado paliativo, assim como a escolha de estar em casa ou no hospital nos últimos instantes de vida. Para aqueles que optarem por estar no conforto de casa, junto de seus familiares ou amigos, a equipe do serviço trabalha na orientação e no esclarecimento sobre o processo de cuidados e as medidas necessárias a serem adotadas. “Em relação às dúvidas que podem surgir, estamos à disposição para dar todo o suporte necessário para que o familiar tenha segurança de não se sentir abandonado quando o óbito ocorrer em casa”, esclarece a enfermeira Nára. Ela explica ainda que a equipe mantém vinculação com o usuário e seus familiares por meio de teleconsultas e ligações regulares. Nesses contatos, é possível avaliar o quadro do paciente e passar orientações. “Muitas vezes, conseguimos orientar sobre questões referentes à evolução natural da doença, o que traz certo conforto e tranquilidade em relação ao futuro”, reforça.
ESPECIALIZAÇÃO
Atualmente, por meio da Escola GHC, existe uma especialização na área de Cuidados Paliativos para equipe multiprofissional, e o objetivo é capacitar cada vez mais profissionais de saúde para atuar em toda rede. Da mesma forma, este ano, foi realizado um curso para técnicos de enfermagem em Cuidados Paliativos. O serviço, juntamente com a direção do GHC, também está estruturando equipes de matriciamento, responsáveis por realizar consultorias e teleconsultas, para uma grande área de abrangência populacional. O trabalho é estruturado para garantir a adequação à Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída em maio pelo Ministério da Saúde. Inéditas no SUS, as diretrizes buscam permitir uma assistência mais humanizada aos usuários. Segundo Luciana Saavedra, coordenadora do Serviço de Dor e Cuidados Paliativos, a equipe do GHC foi convidada a participar como órgão consultor desta política.
AÇÃO MULTIDISCIPLINAR
O Serviço de Dor e Cuidados Paliativos também possui profissionais das áreas de Saúde Mental e Serviço Social para dar suporte aos familiares e pacientes internados. A assistente social Fernanda Brenner e a psicóloga Anelise da Silva, referências do Serviço, são exemplos deste trabalho, porque criaram um grupo de apoio voltado a este público. A psicóloga destaca que esse grupo é uma ferramenta fundamental na medida em que olha para a família e o paciente de forma integrada. Segundo ela, os familiares também vivenciam as perdas que acontecem em decorrência do diagnóstico e do avanço da doença. “O grupo foi criado com base na necessidade de oferecer um espaço de escuta, acolhimento, suporte, apoio e de troca entre os familiares, para que não se sintam desamparados”, esclarece Anelise. O intercâmbio de informações e experiências que o grupo de apoio proporciona ajuda no enfrentamento dos desafios inerentes ao processo de cuidados paliativos. “Os sentimentos, conflitos, dificuldades e sofrimento são compartilhados, e essa ação ajuda a lidar melhor com as situações enfrentadas”, reforça.
EMPATIA
A psicóloga Anelise ressalta que a escuta é uma grande aliada, dentro de dois possíveis cenários: durante uma visita ao doente internado, por exemplo, ou quando o paciente opta por ficar em casa. Segundo ela, em alguns momentos, a forma de prestar apoio é com a atenção à conversa, permitindo que a pessoa tenha espaço para expressar o que sente. Assim, a parte envolvida pode compreender e validar este discurso. O paciente muitas vezes sabe o que está acontecendo e pode existir uma dificuldade das pessoas próximas em escutar. “Para muitas famílias e para algum pacientes, a tendência é evitar tocar em assuntos delicados como, por exemplo, questões relacionadas a bens materiais, conta no banco e preferências do velório”, esclarece a profissional. Ela argumenta que esse espaço de escuta e de fala é importante para o paciente, porque é uma forma de concluir tarefas, resolver pendências e aliviar preocupações.
O OLHAR DO CONTATO DIRETO
“Uma experiência que me marcou bastante foi com um paciente que ficou mais de um ano conosco e no início ele era superativo, caminhava, falava, era mais independente, mas, com o agravamento da doença, ele acabou ficando acamado. Foi triste ver a progressão clínica dele para o processo de falecimento, isso marcou bastante. Depois que ele se foi, levei um tempo para me acostumar, porque, às vezes, ainda parece que vou chegar para trabalhar e vou encontrá-lo andando pelo corredor, ou sentado nas cadeiras em que costumava ficar. O que nos conforta é fazer parte do processo, trazendo melhor qualidade para o paciente durante o tempo que está conosco.” - Alessandra de Souza, enfermeira da Unidade 4B2 - Cuidados Paliativos.
“É um setor bem desafiador para se trabalhar e algumas experiências na minha vida pessoal tornaram a situação um desafio ainda maior. Para minha surpresa, esse desafio passou a ser algo muito gratificante como profissional. A principal lição que aprendi aqui é que não precisamos curar para promover o bem-estar dos pacientes e dos familiares, mas podemos dar mais dignidade, porque eles têm vida para viver, independentemente se é um dia ou se são meses. É uma grande satisfação para nós saber que a gente deu o nosso melhor a partir do momento em que, em meio a tanta dor pela perda, tantos familiares agradecem pelo nosso atendimento, mesmo com lágrimas nos olhos, mesmo em processo de luto. Ficamos convictos de estarmos no caminho certo e de que fizemos nosso melhor e o que estava ao nosso alcance para que aquela pessoa tivesse o finalzinho de vida dela com as suas necessidades atendidas, com seus desejos, dentro das possibilidades, realizados.” Shaiane Loss, enfermeira da Unidade 4B2 Cuidados Paliativos.
“Estou atuando no setor há dois anos e a visão que tenho hoje é totalmente diferente da que tinha quando iniciei. Durante o curso, o que aprendemos é muito superficial, porque é uma visão geral. Ao vivenciar a realidade, descobrimos que o cuidado paliativo não é uma sentença de morte. Aqui aprendemos a lidar com a dor das pessoas e percebemos que, se paramos cinco minutos para conversar com o paciente, esse trabalho faz toda a diferença. Apesar da correria, do estresse do dia a dia, a gente aprende muito com os cuidados paliativos.” - Renata Botelho, técnica de Enfermagem da Unidade 4B2 - Cuidados Paliativos.
Créditos: Marianna de Azevêdo