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14.08.2025 PESQUISA

Estudo de pesquisadores do GHC descobre que a maior parte dos casos com suspeita de leptospirose na enchente de 2024 era de outras doenças, especialmente dengue

Leptospirose, no entanto, foi a doença com desfechos clínicos mais graves
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Roberto Carlos Freitas Bugs, biomédico do IPARGS; Marineide Gonçalves de Melo, coordenadora do Programa de Residência Médica em Infectologia do HNSC; e Brano Riegel, coordenador do Serviço de Infectologia do HNSC.
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Dra Marineide com os pesquisadores Karin Nielsen e Cristopher J. Hernandez, da UCLA David Gergen School of Medicine, e Fernando Echegeray, aluno da universidade americana.

Pesquisadores do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) realizaram investigação para descobrir a real causa dos casos notificados como leptospirose após a enchente histórica de 2024 no Rio Grande do Sul e constataram que a ameaça de um possível surto da doença não se concretizou. O estudo testou para dengue e/ou leptospirose 503 pacientes que haviam sido atendidos nas unidades de saúde, UPA ou unidades hospitalares do GHC. Dos 485 pacientes que realizaram o teste para leptospirose, apenas 3,5% foram confirmados. Por outro lado, dos 303 pacientes que testaram para dengue, houve confirmação em 33,7% dos casos. No grupo de 283 pacientes que realizaram os dois testes, 67,5% resultou negativo para ambos, com casos confirmados de hantavírus, influenza A e HIV.

O estudo foi conduzido por médicos do Serviço de Infectologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição/GHC, em parceria com o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, e com a Universidade da Califórnia em Los Angeles –UCLA. A revista One Health publicou artigo científico com o resultado da pesquisa.

A pesquisa resgata que a enchente expôs milhares de pessoas a patógenos transmitidos pela água, incluindo a Leptospirose. Marineide Gonçalves Melo, médica do GHC e PhD em Infectologia, explica que a preocupação com um possível surto de Leptospirose levou a Secretaria Estadual de Saúde, Secretaria Municipal de Saúde e a Sociedade Brasileira e Gaúcha de Infectologia a recomendarem antibioticoterapia para todos os pacientes com sintomas e fatores de risco compatíveis com a doença, além de quimioprofilaxia com antibiótico para pessoas em risco.

Percebendo que muitos casos notificados como leptospirose tinham sintomas também compatíveis com outras doenças, a equipe de Infectologia do GHC entrou em contato com a UCLA e com a Fiocruz para agilizar a testagem de leptospirose e ampliá-la para outras patologias, identificando a real causa dos sintomas. Todos os 539 pacientes do banco de dados do GHC que apresentaram sinais e sintomas compatíveis com leptospirose, foram convidados a retornar ao ambulatório de infectologia do Instituto de Pesquisa Clínica do Rio Grande do Sul (IPARGS), vinculado ao Hospital Nossa Senhora da Conceição, onde foram testados para leptospirose e dengue.

Ao final do estudo, a equipe encontrou 17 casos confirmados de leptospirose (3,5% da amostra de 485) e 102 casos confirmados de dengue (33,7% da amostra de 303). Entre o grupo que realizou os dois testes, 191 pacientes (67,5%) tiveram resultado negativo para ambas as doenças, mas foram identificados dois casos de influenza A, dois casos de hantavírus, dois casos de malignidade avançada com sepse associada e uma infecção aguda por HIV.

A idade mediana dos participantes foi de 38 anos, sendo que aproximadamente 61% dos pacientes eram do sexo masculino. Entre os participantes com leptospirose, 88% eram do sexo masculino, em comparação com 51% com dengue. A maioria dos pacientes (83,5%) recebeu atendimento ambulatorial, enquanto 16,5% foram hospitalizados. A maioria dos pacientes com leptospirose (58,8%) foi hospitalizada, em comparação com 14,7% daqueles com dengue. Da mesma forma, 47,1% dos pacientes com leptospirose foram internados na unidade de terapia intensiva (UTI) e 11,8% morreram em comparação com 2% dos pacientes com dengue. O estudo demonstrou, portanto, que a leptospirose esteve associada a desfechos clínicos mais adversos quando comparada à dengue e ao grupo de doenças não relacionadas/desconhecidas, sendo mais provável que a doença acometesse o sexo masculino.

Para os pesquisadores, os dados reforçam a necessidade de uma vigilância sistemática mais ampla para patógenos que possam circular em caso de grandes desastres ambientais. “Além disso, diagnósticos mais robustos são urgentemente necessários para distinguir entre as causas de surtos predominantemente febris diante de um clima em mudança”, destacam.

O estudo destaca que o vírus da dengue comumente ocorre simultaneamente com casos de leptospirose, pois as águas das enchentes criam criadouros para o mosquito vetor, Aedes aegypti. “Além disso, a dengue e a leptospirose são difíceis de distinguir clinicamente, especialmente nos estágios iniciais da doença. Surtos concomitantes podem complicar a compreensão de uma epidemia se os diagnósticos precisos não forem estabelecidos”, alerta.

Para distinguir os surtos das doenças de forma confiável, os pesquisadores defendem a realização de testes laboratoriais diretos por meio da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), testes de antigenemia ou medições de sorologia. Para o infectologista Breno Riegel, coordenador do Serviço de Infectologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição, os chamados “testes rápidos” podem garantir diagnósticos mais assertivos e evitar o consumo desnecessários de antibióticos.


Fatores de risco e sintomas

O fator de risco mais relatado foi a exposição à água de enchentes, afetando 86,5% dos participantes, incluindo 100% daqueles diagnosticados com leptospirose. Outras exposições frequentemente relatadas incluíram contato com lixo (25,6%), proximidade ou contato com ratos (17,0%) e contato com corpo d'água natural (11,8%). Não houve diferenças significativas nos tipos de exposição ao risco. Quase todos os pacientes deste estudo residiam na Região Metropolitana e Norte de Porto Alegre.

Houve frequências significativamente diferentes de sinais e sintomas específicos entre os três grupos diagnósticos, incluindo dor de cabeça, sintomas respiratórios, diarreia, lesão renal aguda (LRA), icterícia, diátese hemorrágica e hemorragia pulmonar. Febre foi o sintoma mais comum, relatado em 89,3% dos pacientes em geral, seguido por dor de cabeça (77,1%), diarreia (39,3%) e sintomas respiratórios (28,9%). As diferenças mais marcantes foram observadas na IRA, observada em apenas 6,4% dos casos em geral, mas em 37,5% dos casos de leptospirose. Icterícia foi observada em 5,8%, mas em 25,0% daqueles com leptospirose. Diátese hemorrágica foi observada em 5,7% dos pacientes, mas em 18,8% dos pacientes com leptospirose. Por fim, hemorragia pulmonar foi identificada apenas em 1,4% dos pacientes, mas foi vista em 25% dos casos de leptospirose.


Mudanças climáticas

A pesquisa destaca que o predomínio da dengue, apesar das preocupações iniciais sobre a leptospirose após a exposição à inundação de maio de 2024, foi inesperado. Isso porque a inundação ocorreu durante o outono, uma época em que as temperaturas normalmente caem abaixo da faixa ideal para a atividade do mosquito no sul do Brasil.

“Há uma necessidade urgente de examinar o impacto das mudanças climáticas na distribuição geográfica dos vetores arbovirais, especialmente na expansão das populações de Aedes aegypti”, defendem os pesquisadores, acrescentando que os esforços de saúde pública devem priorizar a vigilância contínua de vetores e estratégias de prevenção de doenças adaptativas ao clima para mitigar o crescente fardo da dengue no sul do Brasil.


Pesquisadores

Hospital Nossa Senhora da Conceição/GHC: Greici Gunzel, Clarice Ritter, Roberto Carlos Freitas Bugs, Thiago Rocha, Ivana Rosângela dos Santos Varella, Maria da Graça Pimenta Machado, Carina Guedes Ramos, Ângela Piccoli Ziegler, Breno Riegel Santos e Marineide Gonçalves de Melo.
Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz: Trevon Fuller e Patricia Brasil.
David Geffen School of Medicine – UCLA: Christopher J. Hernandez e Karin Nielsen-Saines.

Créditos: Ana Luiza Godoy