O 1º Congresso do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) iniciou nesta quarta-feira (28), reunindo palestrantes e especialistas do Brasil e do exterior para debater emergências climáticas, cuidados integrados e participação social, bem como os desafios para o fortalecimento do SUS. Mais de dois mil participantes circularam entre as mesas temáticas e painéis do evento, realizado no Teatro e no Centro de Eventos da Fiergs, em Porto Alegre.
A abertura do evento contou com a participação de diversas autoridades e apresentações artísticas. A banda Bataclã, formada por profissionais da saúde, resgatou a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) durante o espetáculo Pai Guaíba, criado após a enchente que atingiu Porto Alegre em maio de 2024. Na sequência, houve apresentação do acordeonista Diego Dias e declamação de poema pelo funcionário do GHC Cândido Brasil. O hino nacional foi cantado à capela por Sônia Bispo, funcionária do GHC no Hospital Fêmina.
O diretor-presidente do GHC, Gilberto Barichello, afirmou que o congresso com seus mais de dois mil participantes e 241 trabalhos inscritos são a prova de que o SUS vale a pena. Saudou a democracia, o SUS e a força dos trabalhadores do GHC. “Nenhuma instituição de saúde fez mais no enfrentamento às enchentes que o GHC, contratou mais de 800 novos trabalhadores, deu creche para filhos dos funcionários, criou dormitórios para os funcionários que perderam ou não conseguiam voltar para suas casas”, destacacou, acrescentando que “é preciso repensar a relação do homem com a natureza, dos homens entre si e como lidar com a saúde”. Barichello informou que a carta do congresso será levada para a COP 30.
Cláudio Bier, presidente da Fiergs, deu as boas-vindas ao congresso, destacando que este seja um espaço de troca e de avanços concretos. “O país só é forte quando conta com pessoas saudáveis e assistidas em todas as etapas de sua vida”. Já o secretário extraordinário de Apoio à Reconstrução do RS, Maneco Hassen, parabenizou o GHC pela realização do congresso. Destacou, ainda, o auxílio do governo federal no enfrentamento da catástrofe climática do RS.
O presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems-RS), Régis Fonseca, disse que “o GHC é um patrimônio do povo gaúcho”. Ressaltou que o GHC auxilia muito os gestores municipais de saúde, já que atende muitos pacientes do interior e da região metropolitana. Representando o Conselho Nacional de Saúde, Maria Laura Bica disse que o tema do Congresso nos convoca a refletir sobre os grandes desafios que se colocam para o SUS, para os gestores e para os usuários diante das mudanças climáticas. A deputada federal Daiana Santos representou a Câmara Federal do evento e disse que é fundamental valorizar espaços que reúnem saúde, pesquisa e inovação, como o GHC. Destacou, ainda, a importância da existência de núcleos temáticos na rede hospitalar, como o da diversidade e de promoção da igualdade racial.
O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, destacou a “altíssima relevância” da instituição para a saúde na Capital. “Muito obrigado por todas as parcerias, especialmente nos momentos difíceis que atravessamos”, afirmou. Ele ainda ressaltou os desafios de Porto Alegre na adaptação climática, citando que a cidade possui mais de 80 mil pessoas morando em áreas de risco.
O deputado estadual Pepe Vargas, presidente da Assembleia Legislativa, afirmou que o debate proposto pelo GHC é importante para a construção de propostas que visam ao fortalecimento do SUS perante as mudanças climáticas e enfatizou que é preciso pensar em prevenção. “Nós não podemos cair na armadilha de pensar apenas na adaptação climática. Temos que discutir ações mitigatórias”, afirmou, solicitando que a Carta do Congresso, a ser enviada à COP, seja também enviada à Assembleia para subsidiar os debates que o Legislativo vem realizando sobre o desenvolvimento sustentável do Rio Grande do Sul.
Também prestigiaram a abertura do Congresso o ex-governador Olívio Dutra, parlamentares, representantes governamentais e lideranças comunitárias, além de membros do controle social do SUS. O evento segue nesta sexta-feira e no sábado, quando contará com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Acolhimento na Tenda Paulo Freire
Pela manhã dessa quinta-feira, 28 de agosto, o 1⁰ Congresso GHC, que ocorre no Centro de Eventos da Fiergs, contou com um ato de celebração dos 20 anos da Tenda Paulo Freire - O esperançar freiriano - e dos 20 anos do Espaço Tchê. A atividade marcou um momento de acolhimento e roda de conversa entre os congressistas sobre cuidado na perspectiva popular e cuidado do território, além de práticas de educação popular e a defesa do Sistema Único de Saúde.
No ato de abertura, o diretor-presidente do Grupo Hospitalar Conceição, Gilberto Barichello, destacou que é a cidadania que garante a continuidade das políticas públicas. “Quem garante a continuidade de uma política pública, é a sociedade civil, são os lutadores sociais”, afirmou.
A tenda contou com atividades na quinta e sexta-feira durante todo o dia. Com a presença dos convidados Wanderleia Pulga, Jorge Santana, Jorge Sena, Maria Beatriz, Adriana Mazedre, Cacique Iracema, Fátima Fischer, Janete Benck, Beatriz Pereira e Isabel Oliveira.
Emergências climáticas e resiliência dos sistemas de saúde
Na tarde da quinta-feira, o 1º Congresso GHC promoveu a mesa “Emergências climáticas e resiliência dos sistemas de saúde”. O encontro discutiu as necessidades diante da crise climática, os cuidados integrados, a participação social e os desafios para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), que se retoma ao refletir os acontecimentos vivenciados no Rio Grande do Sul durante as cheias de 2024.
A psicóloga e pós-doutoranda em Saúde Mental e Desastres Débora Noal destacou a importância de preparar, prevenir e responder de forma digna e justa a eventos climáticos extremos. Ela afirmou que a saúde hoje é a matriz indicadora de como as políticas públicas são coerentes para manter a dignidade e que esse aspecto se potencializa no momento de um desastre.
Na sequência, o médico e ex-dirigente do sistema de saúde de Mianmar - país do Sudeste Asiático -, Maung Oakarr, apresentou as experiências de trabalho voluntário de profissionais da saúde em seu país, o qual enfrentou muitas dificuldades. Ele encerrou parabenizando o SUS pelo trabalho e dedicação aos brasileiros.
Representando a OPAS Brasil Rafael Dal Alba, trouxe um modelo estratégico voltado à capacitação e à estruturação da saúde primária, com foco em ampliar o acesso, fortalecer a continuidade do cuidado e aumentar a eficiência no uso dos recursos.
Já a representante do Hospital Federal de Bonsucesso, do Rio de Janeiro, Jaqueline Silva ressaltou a importância de olhar para comunidades em áreas vulneráveis, que, muitas vezes, ficam à margem das políticas públicas necessárias.
A mesa foi coordenada pela diretora de Inovação, Gestão do Trabalho e Educação do GHC, Quelen Tanize Alves da Silva, que resumiu o debate afirmando que sem democracia não há saúde.
Ainda na tarde desta quinta-feira, ocorreu a roda de conversa com o tema “Educação popular e a promoção da equidade em saúde”. Com a participação de representantes da Secretaria Estadual da Saúde do RS (SES), bem como de trabalhadores do GHC, foram discutidas políticas de equidade, as dificuldades na implementação e sua importância na garantia da cidadania plena.
O servidor da área técnica da política de saúde da população LGBT da SES Iuday Motta destacou a importância do ParticipaSUS e dos movimentos sociais no fortalecimento da gestão participativa e na criação de políticas específicas, como a de saúde da população LGBT e negra. “Faz diferença porque ajuda a impulsionar essas políticas que, muitas vezes, ficam invisibilizadas”, afirmou.
Na mesma linha, a presidente da Comissão da Promoção da Igualdade Étnico Racial do GHC (Ceppir), Fernanda Vargas, resgata a história da comissão e sua atuação para melhorar o atendimento e o ambiente de trabalho para a população negra no GHC. “Foi feito letramento racial, porque quando entrávamos no GHC era ‘todo mundo igual’, mas como vai ser pensar em políticas afirmativas se não tem esse recorte?”, questionou. A partir dessa leitura racial, foram implementadas as políticas de cotas do GHC, que conseguiu amplificar a quantidade de trabalhadores negros de 5% para 20%.
Créditos: Ana Luiza Godoy, Andréa Araujo, Evelise Machado, Lorenzo Mascia, Marianna Azevedo e Rafael Macchi (Texto) / Diego Giru, Evelise Machado, Lorenzo Mascia e Rafael Macchi (Fotos).