O dia 29 de agosto marca o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A data busca não somente falar da existência dessas mulheres, mas também destacar as lutas por políticas públicas específicas, contra o apagamento histórico e a discriminação. Em alusão à data, o Grupo Hospitalar Conceição (GHC) resgata a história de Carla de Souza Baptista, uma figura impulsionadora de mudanças no GHC e na cidade de Porto Alegre.
QUEM ERA CARLA
Considerada pelos seus conhecidos como “uma mulher à frente do seu tempo”, Carla era pós-graduada em Gestão Hospitalar, Raça e Gênero e foi coordenadora de Direitos Humanos do GHC, onde também atuou como diretora de hospital. Fora do ambiente de trabalho, dedicava-se à militância.
Carla foi uma das fundadoras da ONG Outra Visão – que opera em Porto Alegre e no interior gaúcho pela promoção da cidadania e de direitos humanos para a população LGBTQIAPN+ – e encabeçou o evento Visibilidade Lésbica de Porto Alegre. Em sua primeira edição, o evento reuniu apenas dez mulheres diante do palco, devido ao medo de exposição. Dez anos depois, o encontro já contava com mais de 300 participantes, recebendo Carla, nesse dia, uma placa de honra ao mérito pelo trabalho realizado.
Essa foi a última Visibilidade de Carla, que, durante a celebração, já sabia do diagnóstico de câncer e enfrentava o início do tratamento. Apesar disso, continuou pintando os cabelos de várias cores e vestindo-se como queria, enfrentando o preconceito de cabeça erguida.
No segundo semestre do ano, fragilizada, considerou mudar-se para perto dos seus amigos e de Priscila – sua esposa – mas optou por ficar no seu apartamento repleto de memórias afetivas. No início de 2017, a militante realizou uma viagem sozinha para reencontra amigos – parte de uma despedida silenciosa, consideram eles. Em 27 de julho de 2017, Carla faleceu.
Seu velório transformou-se em uma homenagem viva à sua história. Amigos, colegas, militantes e lideranças religiosas compareceram, prestando discursos e bebericando ao som de suas músicas favoritas. “Foi uma despedida alegre, como Carla merecia”, afirma Isidoro Reis – amigo “irmão” de Carla.
Em vida, Carla não lutou apenas pelos direitos da sua comunidade, mas por todos os direitos humanos. Sua atuação no GHC teve papel fundamental na criação da Comissão de Promoção da Igualdade Étnico Racial (Ceppir), Comissão Especial de Políticas de Promoção e Acessibilidade e Mobilidade (Ceppam) e Comissão Especial de Promoção da Igualdade de Gênero do GHC (Cegênero), que buscam a diversidade e a boa convivência no ambiente de trabalho do Grupo.
Carla é lembrada com carinho pelos colegas de trabalho, que destacam sua amabilidade, pré-disposição a ouvir o outro e ânsia por mudança social. “Essa pessoa fez e fará a diferença”, destaca Clori Pinheiro, ex-funcionária do GHC, ex-presidente da Cegênero e, sobretudo, amiga de trabalho de Carla.
CONTEXTO HISTÓRICO
Não apenas esta data, como o mês de agosto inteiro – reconhecido nacionalmente como o Mês da Visibilidade Lésbica -, remete às lutas da década de1980 e 1990. Em 19 de agosto de 1983, um grupo de lésbicas frequentadoras do Ferro’s Bar, na cidade de São Paulo, articulou um protesto contra as violências sofridas no local, que era amplamente frequentado pela comunidade. A data ficou marcada como Dia do Orgulho Lésbico e foi reconhecida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) em 2008.
Já em 29 de agosto 1995, um grupo de mulheres lésbicas do Rio de Janeiro organizou o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), visando discutir suas lutas e direitos. Essa data foi estabelecida como Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.
O legado dessas lutas abre espaço para outras reinvindicações de mulheres, que não podem ser invisibilizadas no cuidado - especialmente no SUS. Resgatar histórias como essas é essencial para a discussão do cuidado e qualificação dos serviços oferecidos pelo GHC 100% SUS.
Créditos: Evelise Machado.