Foi grande a movimentação, nessa sexta-feira, 29 de agosto, no 1º Congresso do Grupo Hospitalar Conceição. Nesse segundo dia de atividades, ocorreram debates e iniciativas culturais nas diversas salas e no teatro da Fiergs, onde se realiza o evento.
Pela manhã, a Sala 3 do Centro de Eventos foi dedicada ao programa Agora Tem Especialistas. O primeiro painel do dia contou com a participação do secretário de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Mozart Sales, do diretor-presidente da AgSUS, André Longo Araújo de Melo, e da coordenadora-geral de Apoio à Gestão Descentralizada dos Programas de Provimento, Thais Maranhão de Sá e Carvalho. Eles detalharam o funcionamento do programa, que é inovador na Atenção Especializada.
“Medicina de família e comunidade é uma especialidade chave neste processo”, destacou Longo, acrescentando que o programa busca levar mutirões para regiões desassistidas. A especialidade com maior fila de espera no Brasil, segundo ele, é a oftalmologia. Para resolver esse problema carretas equipadas com consultório, equipamentos para exames e cirurgias oftalmológicas serão encaminhadas para as regiões com maior carência da especialidade.
Mozart Sales apresentou as áreas prioritárias do programa, destacando que ele contempla 1.279 tipos diferentes de cirurgias nas áreas de oncologia, ginecologia, cardiologia, ortopedia, oftalmologia e otorrinolaringologia. “Tínhamos um problema grave de diagnóstico em tempo inadequado, com pouco acesso a exames de alta complexidade, como tomografia e ressonância”, disse, acrescentando que o Agora Tem Especialistas busca resolver esse gargalo.
Além da atuação dos serviços do SUS em todo o Brasil, o programa ainda prevê a troca de parte das dívidas de instituições privadas e filantrópicas pela prestação de serviços aos usuários do SUS. Sales explicou que o certificado de valor de crédito financeiro é uma espécie de moeda do SUS. Por meio dele, dívidas com a União podem ser pagas com desconto de até 70% em juros e multas. Aderindo ao programa, esses hospitais, além de abaterem os juros e multas, ganham “capacidade de fazer a base de giro financeiro aumentar”, facilitando a quitação de suas dívidas.
Agora Tem Especialistas no RS
A Mesa Agora Tem Especialistas no RS foi mediada pelo diretor de Atenção à Saúde do GHC, Luís Antônio Benvegnú, e abordou a situação e os resultados do programa no Estado. Destacando que os municípios gaúchos investem R$ 500 milhões por ano para o transporte sanitário de pacientes que precisam realizar consultas, exames e cirurgias em outras localidades, o diretor-executivo do Cosems, Diego Espíndola, pediu atenção para esse tema. “Muitas vezes, temos um carro levando apenas um paciente para aquela especialidade. Precisamos juntos pensar de que maneira podemos melhorar esse sistema”, disse.
Para a secretária-adjunta da Secretaria Estadual da Saúde (SES), Ana Costa, a chegada do Agora Tem Especialistas no Rio Grande do Sul encontrou um cenário favorável, pois o Estado já implementava o plano de Oferta de Cuidados Integrados (OCI) proposto pelo Ministério da Saúde em 2024. Falando sobre a grande demanda de especialidades médicas, ela destacou que o Estado recebe 88 mil novos pedidos de consulta com especialistas por mês. Gabriela Nascimento, analista de saúde na SES, detalhou a atuação da pasta no programa. Conforme ela, o Estado tem 297 mil OCIs pactuadas junto ao Ministério da Saúde. “Nosso maior desafio é o absenteísmo”, disse, acrescentando que é preciso melhorar o transporte sanitário para diminuir as faltas a consultas, exames e cirurgias.
Marina Manzano, apoiadora institucional do MS para o Agora Tem Especialistas no RS, disse que o estado reúne um contexto “hiperfavorável”, com rede de atenção à saúde robusta e bem estruturada, profissionais qualificados e o apoio do Ministério. Ela ainda detalhou os valores destinados para cada um dos componentes do programa.
O diretor-presidente do GHC, Gilberto Barichelo, disse que existem R$ 34 bilhões de dívidas de hospitais com o governo federal e mais de R$ 30 bilhões parados em fundos municipais e estaduais de saúde no Brasil. “É preciso repactuar para que esses recursos sejam usados mais rápido para diminuir o sofrimento das pessoas que precisam de tratamento médico”, afirmou.
Na sequência, Barichello apresentou os resultados do Agora Tem Especialistas no GHC, destacando a realização do terceiro turno para utilizar toda a capacidade instalada das unidades do Grupo. “Abrimos nossos hospitais de segunda a sexta, das 19h à 1h. Com isso, realizamos 2.519 cirurgias e aumentamos em 264 as sessões de radioterapia com o mesmo equipamento funcionando à noite”, celebrou.
Diretor de Tecnologia da Informação na Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), Giliate Cardoso Coelho Neto, apresentou o SISNAV, sistema desenvolvido pela estatal para o Agora Tem Especialistas. O sistema possibilita o monitoramento em tempo real dos pacientes inseridos nas OCIs e estará disponível para todo o SUS ainda neste segundo semestre de 2025.
Desafios da formação profissional
Foi realizada também a palestra "Desafios da formação profissional para o desenvolvimento do trabalho na saúde". Nela, estavam presentes o secretário do Ministério da Saúde de Myanmar, Dr. Maung Oakarr, a diretora da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, Teresinha Valduga, e o diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Fabiano Ribeiro dos Santos.
Maung Oakarr destacou a importância de os profissionais da saúde terem um desenvolvimento profissional contínuo. “A educação da área da saúde é baseada em três pilares: conhecimento, habilidades e atitude para o cuidado", disse.
Já Teresinha Valduga salientou: "nós sabemos o quanto é importante a educação permanente quando se trata de assistência e do cuidado da pessoa humana. A essência, o cuidado, o valor e a importância é a mesma em qualquer canto desse país, porque nosso bem mais precioso é a saúde".
Inovações na formação em saúde
Na sequência, ocorreu a mesa com o tema “Inovações na formação em saúde: mobilizando corações e mentes em defesa do SUS”, reunindo representantes da Universidade de Parma, do Ministério da Saúde e de instituições públicas de ensino brasileiras. O debate destacou os desafios e as possibilidades da formação profissional diante das transformações tecnológicas, sociais e epidemiológicas que impactam o Sistema Único de Saúde.
A vice-diretora de Relações Internacionais da Universidade de Parma, Cecilia Mancini – que esteve presente na mesa por meio de vídeo chamada –, apresentou a experiência italiana na formação de profissionais da saúde. Segundo ela, o foco é oferecer educação continuada, visando preparar profissionais críticos e inovadores, capazes de integrar teoria e prática, além de dialogar com diferentes áreas do conhecimento. “A educação superior tem o papel e o dever de espalhar e cocriar essa educação continuada para capacitar profissionais, críticos, resilientes e focados nas pessoas”, afirmou.
Na sequência, o Diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde (DEGES), Fabiano Ribeiro, destacou que a inovação precisa ser entendida não apenas como a incorporação de equipamentos ou softwares, mas como a reorganização de processos, serviços e práticas formativas. Para ele, a atualização permanente é essencial diante de mudanças epidemiológicas e sociais que pressionam o SUS, como o crescimento da demanda em saúde mental e o impacto das novas tecnologias. “Mais do que dispor de ferramentas, é preciso formar profissionais capazes de utilizá-las para ampliar a clínica, otimizar o atendimento e responder às necessidades reais da população”, refletiu.
Atenção básica em saúde e resiliência
Como parte das atividades previstas na programação do 1⁰ Congresso GHC, a manhã dessa sexta-feira contou ainda com uma mesa para discutir a atenção básica em saúde e resiliência dos territórios. A atividade teve como convidada a diretora de Atenção Primária da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, Vânia Frantz, que destacou os eventos climáticos que afetaram a saúde da população no Estado em 2024 e ações imediatas e resilientes em saúde. Também participou, de maneira remota, o secretário de políticas para a saúde do governo regional da Emilia Romagna na Itália, Massimo Fabi, que falou sobre os eventos climáticos emergentes que afetaram a Itália em 2023 e 2024 e como os eventos estão ligados às necessidades de saúde, a proteção civil e o sistema sanitário.
Planejamento Estratégico
As atividades da tarde tiveram início com a apresentação do Coral Nhe Èngatu Mirim da Aldeia Nhe Èngatu – Mbyá Guarani de Viamão, que precedeu a mesa “Planejamento Participativo do GHC para o período 2024 a 2030”, conduzida pelo diretor Administrativo e Financeiro do GHC, João Motta, e que reuniu a representação dos usuários e dos delegados do processo participativo de planejamento do GHC. Na ocasião, os gerentes das unidades hospitalares do Grupo falaram dos desafios e conquistas já alcançadas. O gerente de Governança, Riscos e Conformidade do GHC, Leandro Pires Barcellos, relembrou as pré-conferências realizadas em 2023, que balizaram as definições dos objetivos e os 105 indicadores que serão monitorados.
Também foi realizada a mesa “Populações tradicionais, saúde e ambiente: saberes tradicionais e o bem viver no cuidado em saúde”, coordenada pela médica do GHC, ambientalista e indigenista Roselaine Murlik, que trouxe experiências com populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas no cuidado com a saúde.
Saúde digital
Ainda na tarde dessa sexta-feira, ocorreu a mesa de conversa com o tema “Saúde digital e transformação digital do SUS”. O debate foi centrado nos benefícios da tecnologia para o avanço no cuidado de pacientes, apontando os ganhos que métodos já existentes em Estados brasileiros vêm adquirindo e como a articulação e unificação desses sistemas podem contribuir para um atendimento mais ágil e especializado.
Como forma de demonstrar métodos e resultados, o secretário municipal da Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Ricardo Soranz Pinto, apresentou o funcionamento da plataforma RioSaúde, empresa pública de saúde que atua na capital. Na mesma linha de transformações digitais, o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Heider Aurélio Pinto destacou a experiência da Prefeitura de Recife com a plataforma Conecta Recife, que permite aos cidadãos agendar consultas e exames, além de acessar resultados de forma online.
Apontando para as possibilidades futuras, o diretor de Tecnologia da Informação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) apresentou as funcionalidades do aplicativo AGHU, disponibilizado pela Ebserh e que recentemente teve termo de parceria firmado com o GHC. Concluindo, a coordenadora-geral de Monitoramento e Avaliação - CGMA/DEMAS/SEIDIGI, Alessandra Dahmer, reforçou o tema central da mesa na construção de um sistema único e completo, evitando a divisão em diversas plataformas que dificultam atualizações e melhorias. “Com a implantação do Agora Tem Especialistas, é muito importante ter este alinhamento”, exemplificou. A mediação da mesa foi feita pelo médico e assessor da diretoria do GHC Fernando Anschau.
Mudanças climáticas, políticas públicas e sustentabilidade socioambiental
A última mesa do dia discutiu as relações entre mudanças climáticas, as políticas públicas e a sustentabilidade socioambiental e foi mediada pela diretora Inovação, Gestão do Trabalho e Educação do GHC, Quelen Tanize Alves da Silva. Maria Luiza Saraiva-Pereira, representante da Reitoria da Ufrgs, falou sobre o papel da Universidade e a contribuição da ciência no enfrentamento às mudanças climáticas. Ela apresentou exemplos de projetos de pesquisa voltados a entender e prevenir desastres climáticos.
Kyaw Zaw Wai, representante do Governo Democrático de Mianmar, abordou a relação entre mudanças climáticas e democratização. Conforme ele, o regime ditatorial instalado no seu país, aumentou o desmatamento e retirou recursos das ações de prevenção às mudanças do clima, gerando caos na saúde da população. “Enfrentamos crise climática e uma guerra civil. O exemplo de Mianmar mostra que se temos democracia, temos uma saúde melhor e ações para enfrentar as mudanças do clima”, afirmou.
Presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto destacou que o GHC foi precursor na aquisição de alimentos da agricultura familiar. Hoje, 31% da alimentação consumida nos hospitais do Grupo são provenientes da agricultura familiar. “Temos que incentivar quem produz comida boa para levar saúde por meio da alimentação”, enfatizou.
O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Pepe Vargas, disse que o Legislativo também está debatendo a questão climática com diversos seminários e plenárias. “Não há contradição entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico. Precisamos acabar com essa falsa dicotomia”, afirmou.
O Congresso do GHC segue neste sábado com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Créditos: Ana Luiza Godoy, Andréa Araujo, Evelise Machado, Lorenzo Mascia, Marianna Azevedo e Rafael Macchi (Texto) / Diego Giru, Evelise Machado, Rafael Macchi e Ana Luiza Godoy (Fotos).