Grupo Hospitalar Conceição ancora
logo
instagram facebook twitter youtube uptodate linkedin
27.01.2014 ESPECIAL

Incêndio da boate Kiss

Durante esta semana, a Assessoria de Comunicação Social do GHC abre um espaço no site da instituição para que os trabalhadores deixem registrado, de alguma forma, suas vivências junto aos sobreviventes da maior tragédia da história do Rio Grande do Sul.
files/img.ptg.2.1.01.7253.jpg
Jéssica depois de quatro cirurgias no Hospital Cristo Redentor

“A Clínica do Trauma” é uma contribuição da psicóloga Maristela Leivas, do Hospital Cristo Redentor. Envie também sua contribuição para ghcacs@ghc.com.br, em forma de artigo, depoimento ou qualquer outra forma de expressão
escrita.

A Clínica do Trauma*

A população gaúcha viveu, há um ano, sua pior tragédia, o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria. O desastre atingiu um número alarmante de vítimas, 242 jovens morreram no acidente. Entre os sobreviventes, muitos seguem e seguirão tratando sequelas respiratórias, danos físicos e cicatrizes próprias às queimaduras, durante um longo período de suas vidas.

No HCR, assistentes sociais e psicólogos receberam a notícia e o chamado do hospital para a organização da recepção e atendimento aos pacientes que viriam para a internação, no domingo, dia 27 de janeiro de 2013. Naquele dia e no seguinte, a UTI do HCR recebeu sete pacientes procedentes de Santa Maria:

Leito 06 - Willian Brizola Lisboa - 21 anos
Leito 09 - Pedro Falcão Pinheiro - 25 anos
Leito 15 - Raquel Audrei Dias Padilha - 36 anos
Leito 18 - Bruno Rupollo Grethe - 18 anos
Leito 21 - Juliano Almeida da Silva
Leito 24 - Rodrigo Taugen
Leito 18 – Jessica Duarte da Rosa

Como foi o trabalho com as famílias naquele período?

Por solicitação do dr. João Potrich, gerente de Internação do HCR naquele momento, reunimos colegas do Serviço Social e da Psicologia, depois começamos a abordagem às famílias na sala de espera da UTI.

Inicialmente as pessoas estavam dispersas, as abordamos oferecendo nosso serviço, registramos dados importantes, situamos nossas salas e disponibilidade para acompanhá-las nos próximos dias. Naquele momento, o estado de saúde dos pacientes era a maior preocupação, estavam todos muito aflitos e solicitavam informações a todo o momento. Tínhamos um plantão entre os colegas para manter a possibilidade de contato com os familiares, oportunizando espaços de escuta. Os familiares desejavam falar sobre o filho internado, relatar sua história de vida, retomar o que se passou no acidente. Falavam sobre as expectativas de melhora ou das notícias ruins que alguns recebiam, considerando a evolução do tratamento. A cada dia, tentávamos manter algum controle sobre a situação de angústia própria ao desastre, que atingira, de alguma forma, também os técnicos e a população interna do hospital. Contávamos também com o apoio da Secretaria de Saúde do Município, que ofereceu ajuda, encaminhando condições de alojamento e outros recursos aos familiares.

Nesse tempo inicial, revimos ações de intervenção e nos propomos a seguir os passos próprios à ajuda em situação de desastre ou acidentes com múltiplas vítimas. Logo recebemos orientações da Diretoria do GHC para que oferecêssemos apoio humanitário próprio à situação de emergência. As famílias passaram a dispor de uma sala com espaço para café e lanches para se acomodarem durante a permanência no hospital. Nossa equipe frequentava esse espaço e mantinha diálogo com os que lá estavam, identificando o grau de estresse dos familiares e priorizando a atenção conforme o que se apresentava.

Acompanhamos as famílias nos vários estágios do tratamento. Alguns pacientes tiveram alta da UTI e foram transferidos à unidade de internação de pacientes queimados. Nesse momento de melhora de alguns pacientes, observamos que o nível de angústia aumentou para outros familiares. Os pacientes começavam a entender melhor o que havia ocorrido. As famílias passaram a preocupar-se mais com o sofrimento psicológico. Antecipavam a possibilidade de trauma próprio às lembranças do acidente, como noticiar a morte de amigos, bem como as dificuldades que os pacientes enfrentariam para suportar os danos físicos e psicológicos.
Além disso, já havia se passado muitos dias, e a UTI decidiu retomar as regras de horários de visitas, restringindo-as apenas aos horários previamente determinados. Nesse momento, foi possível observar a expressão de revolta e desagrado das famílias, dirigindo as suas contrariedades à equipe. Diante disso, foi necessário um novo acordo com horário de visitação intermediário.

Entre aqueles que permaneceram na UTI, dois pioraram e faleceram ao longo do tratamento, um deles após uma luta de mais de trinta dias de tratamento. As perdas comoveram a equipe e os demais familiares. Alguns que seguiram suas vidas continuam com um tratamento de reabilitação de sequelas de queimaduras, retornando periodicamente ao ambulatório do hospital. Outros, com ferimentos menores, seguem bem, tendo retomado suas atividades e o curso universitário.

O antes e o depois do acontecimento traumático

Sabemos que o traumatismo arranca o sujeito do lugar onde estava instalado, faz um rasgão irremediável, marcando a vida por um ‘antes’ e um ‘depois’, e desde aí o sujeito não será mais o mesmo. Sabemos que o enfrentamento com o ‘depois’ produzirá questões que, não raro, se manifestam nos estados de descontrole ou desorganização psíquica. Porém, entendemos que um quadro sintomático não acontece necessariamente em todos os casos de situações trágicas. É preciso que o acontecimento atual faça conexão com um outro, anterior, então as defesas poderão não funcionar. Conforme um dos maiores especialistas em trauma na América do Sul, Rodrigo Figueroa, as pessoas são muito mais resistentes a episódios traumáticos do que se pensa: “seis em cada sete não desenvolvem sequelas emocionais”.

Durante o trabalho com pacientes que internam no HCR após um acidente, incluindo os de Santa Maria, percebemos que o sentimento em relação ao tempo pode se apresentar bastante alterado, como se esses sujeitos estivessem perdidos na cronologia de sua história. Nessas situações, tanto a função da memória quanto a da atenção podem se apresentar alteradas. Em toda a literatura dirigida ao traumatismo, constatamos a descrição de dois polos mnésicos, que poderão se apresentar de forma única ou alternada, a hipermnésia (a presença incessante das lembranças) e a amnésia (a ausência de lembranças). Alguns pacientes lembravam detalhes da situação do incêndio, retomando sempre o antes e o depois do acontecimento: os momentos prévios ao acidente, as imagens das chamas e do pânico coletivo e a alternativa utilizada para escapar daquela situação. A hipermnésia parece o fenômeno mais curioso e original entre os transtornos de memória. O sujeito procrastina, repete de maneira quase monolítica o acontecimento traumático e, invadido por essas imagens, terá alterações no sono e pesadelos frequentes. Na forma de um bloco imóvel, tais ideias se repetem, impedindo um fluxo psíquico dinâmico.

Em outros casos, restará a amnésia traumática, a ausência de lembranças, considerando o efeito insuportável do acontecimento.

A importância de falar sobre o ocorrido

As imagens da cena traumática assumem um lugar na necessidade do paciente falar, repetir, buscando um efeito de descarga para o acúmulo de excitações no aparelho psíquico. Ao dirigir suas questões ao profissional que o escuta, o sujeito terá chances de alguma transformação no seu texto, integrando, de certo modo, o acontecimento no registro de suas representações pessoais. O “jamais como antes” incidirá no trabalho de reconstrução de um novo tecido, numa tentativa de integrar o trauma neste novo tecido psíquico. Nosso trabalho junto ao paciente será o de ajudá-lo nessa reconstrução, de forma que este acontecimento adquira para ele algum sentido.

Considerando o efeito desse desastre numa comunidade como Santa Maria, endossamos o que diz Rodrigo Figueroa em recente entrevista (Zero Hora, 12/01/2014), que, à medida que essas pessoas têm chances de ritualizarem esse episódio através de um memorial, ou atos de recordação, por exemplo, torna a comunidade mais fortalecida.

As cicatrizes desaparecem?

Sabemos que é preciso lembrar para poder esquecer, para que o traumático faça cicatriz. As cicatrizes não desaparecem jamais, mas possibilitam uma transformação que faz resistência à morte da esperança.

Podemos associar as cicatrizes de um evento traumático às demais passagens próprias à vida, que, de certo modo, produzem marcas, as quais se tornarão próprias ao sujeito. Então, as antigas marcas são os velhos traumatismos, que serão acionados a partir de um novo. Diremos, assim, que um traumatismo é sempre um acontecimento atual reanimado pelos mais antigos, que repousam ou, mais seguidamente, estão esquecidos por nós mesmos, traumatismos também de gerações anteriores, que nos precedem, e de onde tem origem nossa herança.
Considerando que o trauma atual reanima o trauma fundamental, o sujeito deverá reencontrar, num esforço regrediente, os traços do primeiro. Serão os diferentes tempos: passado, presente, articulados ao futuro, que obrigarão o sujeito a recriar sua história.

Créditos: *Maristela Leivas, psicóloga do Serviço de Psicologia HCR