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31.01.2014 ESPECIAL

Incêndio da boate Kiss - vivências

A rapidez da ação nas primeiras horas da madrugada do incêndio foi decisiva para o atendimento aos queimados de Santa Maria. Encerramos a série especial “Incêndio da boate Kiss” com o depoimento diretor-superintendente do GHC, Carlos Eduardo Nery Paes, em que faz referência ao sentimento de solidariedade que tomou conta de todos e à presença do estado, com a decisão da presidenta Dilma de cancelar os compromissos que tinha no Chile e se deslocar para Santa Maria, colocando toda estrutura do governo para atender aos feridos e seus familiares.
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Equipe da UTI do HNSC com pacientes.
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Equipe de saúde com paciente e familiar.

"A força da solidariedade e a presença do estado
A rapidez da ação nas primeiras horas da madrugada do incêndio foi decisiva para o atendimento aos queimados de Santa Maria. Encerramos a série especial “Incêndio da boate Kiss” com o depoimento diretor-superintendente do GHC, Carlos Eduardo Nery Paes, em que faz referência ao sentimento de solidariedade que tomou conta de todos e à presença do estado, com a decisão da presidenta Dilma de cancelar os compromissos que tinha no Chile e se deslocar para Santa Maria, colocando toda estrutura do governo para atender aos feridos e seus familiares

O dia não havia amanhecido ainda quando o telefone tocou, naquela madrugada de janeiro de 2013. Era meu filho Lucas, que tem 21 anos e faz Direito na UFRGS. Ele estava com a voz embargada quando me contou o que, horas depois, seria notícia em todas as rádios, televisões e agências do mundo: a morte de centenas de universitários na Boate Kiss em Santa Maria. Em seguida, quase que em sincronia, recebi a mesma notícia por meio de uma mensagem do então diretor técnico do GHC, Neio Lúcio Pereira, e, na sequência, às 7h36min, a ligação do ministro da Saúde Alexandre Padilha. “Dr. Nery, embarco para Santa Maria dentro em alguns minutos. Uma boate pegou fogo e há dezenas, talvez centenas de jovens mortos e outros severamente queimados. Conto com o teu apoio. Prepara uma sólida estrutura em Porto Alegre”, me disse o ministro.

Neste momento, iniciamos uma operação relâmpago com a participação de quase 300 profissionais do GHC. Reunimos enfermeiros, médicos, técnicos e auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, entre outros. Enquanto nossa equipe se preparava, fizemos contato com os diretores dos grandes hospitais de Porto Alegre e de Canoas. Essa articulação foi fundamental para garantirmos 64 leitos de UTI e 36 leitos semi-UTI em hospitais públicos e privados, além de unidades de suporte avançado do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Poucas horas depois do contato com Alexandre Padilha, conseguimos montar uma sólida infraestrutura para receber os feridos.

A presença do estado, imediatamente após o ocorrido, foi vital para o êxito no atendimento aos feridos e aos seus familiares, possibilitando a organização e a articulação de hospitais do Rio Grande do Sul, de instituições de saúde do país e do exterior, bem como o auxílio de órgãos públicos e de entidades sociais de maneira geral.

A presidenta da República, Dilma Rouseff, cancelou três reuniões que teria no Chile, naquele trágico domingo de janeiro e embarcou ainda pela manhã para Santa Maria. Antes da viagem, anunciou que havia mobilizado os ministros e que o governo federal faria tudo o que fosse necessário para atender às vítimas e seus familiares do incêndio da boate Kiss, ocorrida na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. Após desembarcar em Santa Maria, Dilma visitou os feridos no Hospital de Caridade e se dirigiu ao ginásio do Centro Desportivo Municipal, onde estava ocorrendo o reconhecimento dos corpos das vítimas da tragédia. Muito emocionada, conversou com alguns familiares que aguardavam para fazer o reconhecimento dos corpos. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi designado pela presidenta para acompanhar as ações do governo e imediatamente informou que as prioridades ao longo do dia eram salvar vidas e aliviar o sofrimento dos familiares com suporte médico e psicológico. Com certeza, muitas vidas foram salvas devido à estrutura disponibilizada pelo governo federal e pelo Ministério da Saúde no atendimento às vítimas e seus familiares, fortalecendo a imagem do SUS, que se mostrou eficiente e determinante.

A atitude da presidenta Dilma Rousseff, que interrompeu um compromisso oficial no Chile para chegar ao mesmo dia em Santa Maria, foi exemplar. O mesmo em relação ao ministro Alexandre Padilha, que participou ativamente do processo, não medindo esforços para garantir dinamismo e qualidade no atendimento aos feridos, percorrendo os hospitais e visitando cada uma das vítimas, tanto em Porto Alegre quanto em Santa Maria.

Essa ação imediata que montamos para receber os queimados, aqueles jovens que faziam lembrar meus filhos, o Lucas e a Júlia, e seus amigos, talvez tenha sido uma das ações mais importantes da minha vida e, por isso, fiz questão de registrá-la. Uma experiência que nos trouxe muito sofrimento e, ao mesmo tempo, nos proporcionou grandes lições. O sentimento de dor estava presente entre nós, mas havia uma força que nos possibilitou reagir diante daquela tragédia, uma força que se propagou a partir da solidariedade que se multiplicava entre voluntários, equipes de socorro, familiares, amigos, imprensa e a sociedade como um todo."
Carlos Eduardo Nery Paes – superintendente do GHC


"Santa Maria!
Santa Maria entrou na minha vida (para sempre), no dia 27 de janeiro de 2013. Era domingo, dia de sol, família reunida, litoral... Logo pela manhã, soube do sinistro (mas não da tragédia). Imediatamente, liguei para o enfermeiro Cléber Verona, coordenador da Força Nacional do SUS (FNS) junto ao GHC, para dizer que, caso precisassem, eu estava pronta para mais uma missão.

Durante boa parte da manhã, fiquei ao telefone organizando, à distancia, a nossa UTI (HNSC) para que os pacientes que necessitassem tivessem o melhor cuidado. Só depois me dei conta que o melhor cuidado significava o melhor de cada um de nós.

À tarde, retornei a Porto Alegre com a certeza de que lá era meu lugar, não importando mais o domingo, o sol, o descanso. Estava enganada, meu lugar era em Santa Maria. Às 18h30min, recebo o telefonema que às 20h, na Base Aérea de Canoas, um avião da FAB nos levaria para Santa Maria. Onde eu iria atuar? Com quem? Onde eu ficaria? Não sabia, nem interessava. Naquele momento, a única certeza é que lá era o meu lugar.

Quando cheguei à cidade, me dei conta da tragédia... A cidade era a personificação da tristeza. Era como se tristeza e cidade fossem a mesma coisa, uma era sinônimo da outra.

Fomos direto para o hospital e lá, recebidos da melhor forma possível. O olhar dos santa-marienses era um olhar de tristeza, contudo, com um brilho que poucas vezes eu vi: era o olhar da solidariedade, a fortaleza da ajuda, a fragilidade do cansaço.

Minha atuação foi no Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo, mais conhecido como Hospital de Caridade (HC). Para lá, foram levados a maioria dos pacientes que precisavam de Cuidados Intensivos. Após uma rápida reunião com o coordenador da FNS e com a gerente de Enfermagem do HC, fui atuar na UTI Neurológica daquele hospital, ali alguns pacientes da tragédia estavam internados.

O cuidado técnico com o paciente grave não era tão diferente daqueles exercidos na nossa UTI. Este eu conhecia... O desconhecido, contudo, estava nos relatos contundentes, na imensa juventude perdida, no adeus precoce.

Ainda hoje, perco o sono e fico pensando em tudo que vi, ouvi e senti... Nada cabe em relatos, nada exprime o sentimento e o sofrimento vivido naqueles dias em Santa Maria. Entretanto, duas coisas eu tenho a certeza, que nenhum cuidado meramente técnico dá conta do sofrimento de alguém e que Santa Maria fez muito mais por mim do que eu por ela (eles). E, por mais piegas que seja, eu sempre vou pedir: 'Santa Maria, abençoe a todos nós.'"
Enfermeira Nára Selaimen Gaertner de Azeredo - coordenadora de Enfermagem da UTI do HNSC e Membro da Força Nacional do SUS


"Sou enfermeira formada pela Universidade Federal de Santa Maria, morei seis anos naquela cidade, tenho irmãs que residem lá e me sinto parte daquela história. No dia 27 de janeiro de 2013, estava de plantão na UTI do Hospital Conceição (HNSC), quando às 7h15min fui comunicada sobre a tragédia. Em um primeiro momento, a angústia tomou conta de mim, pois não sabia se minhas irmãs estavam no local, e graças a Deus não estavam, mas amigos sim. Minha vontade era ir para Santa Maria, quando recebi a ligação da Coordenadora de Enfermagem da UTI, Nára Azeredo, que faz parte da Força Nacional do SUS, questionando-me se eu gostaria de ir para aquela cidade ou auxiliar na organização de leitos de intensivismo no HSNC, visto que o Ministério da Saúde havia decidido abrir leitos para esses pacientes nos hospitais de Porto Alegre. Minha decisão foi ficar junto com a equipe de enfermagem da UTI e, nesse dia, montamos 14 leitos de UTI em aproximadamente cinco horas, contando com apoio da Sala de Recuperação e do Bloco Cirúrgico, assim como das unidades de apoio, da informática, da gasotécnica, da biomédica, da hidráulica, de secretários. Nesse dia, nossa equipe de enfermagem trabalhou arduamente, estávamos embargados na emoção, mas com uma vontade imensa de ajudar, de cuidar, de acalentar as vítimas. Fizemos 12 horas, 18 horas, 24 horas, mas ninguém se sentia cansado. Nesse dia, éramos todos Santa Maria. As vítimas começaram a chegar, jovens cheios de vida, devastados por essa tragédia, e, para minha surpresa, recebi a ligação informando que dois amigos próximos viriam internar na 'minha' UTI. Logo pensei: queria tanto ter ido ajudá-los, e eles vieram até mim, era um sinal, eu precisava cuidá-los... e assim sucederam-se as seguintes semanas, um envolvimento intenso, um doar-se. Fiquei desgastada, assim como toda minha equipe e colegas, pois as emoções eram diárias. Criamos uma sala de apoio aos familiares junto à UTI, onde eles podiam fazer suas refeições, dormir, desabafar... Sofremos e nos alegramos junto aos pacientes e familiares, vibramos com cada melhora, éramos também mães e pais, nos dedicamos em descobrir qual a melhor maneira de assistir os mesmos, quais técnicas e condutas deveriam ser tomadas, estudamos, discutimos, assistimos, cuidamos e, com muito empenho e dedicação, podemos dizer que todos os pacientes vítimas da Boate Kiss que internaram na UTI do HNSC tiveram alta, estão agora com sua família e para sempre estarão em nossas memórias. Parabenizo a todos os profissionais envolvidos nesse episódio, tenho muito orgulho de poder ter ajudado e desejo a todos que perderam algum familiar que encontrem a paz...Meu abraço a Santa Maria - Coração do RS!"
Enfermeira intensivista Rafaela Charão de Almeida - UTI do HNSC


"Uma tragédia como a de Santa Maria na boate Kiss ultrapassa fronteiras. Quando aconteceu, vi pela televisão de alguns pacientes pela manhã, enquanto trabalhava numa das unidades do HNSC. Ainda não imaginava que também teria contato com as vítimas, mas, pouco tempo depois, cobrindo férias de uma colega enfermeira no 2ºI1 (Cardiologia), acabei sendo um dos enfermeiros responsáveis para cuidar de algumas das vítimas que sobreviveram e que haviam tido alta da UTI do HNSC, vindo para a unidade 2ºI1 e 2ºI2 (que na época ainda estava vazia, ainda não havia sido inaugurada como unidade de Neurologia e AVC). O contato com as vítimas e com seus amigos e familiares foi emocionante e marcante, para sempre. Foi uma grande alegria vê-los, alguns dias depois, indo embora, VIVOS, para suas casas."
Enfermeiro Denis Iaros


"Parabéns pela iniciativa, esse triste acontecimento faz parte da história do GHC. Acho muito importante que os trabalhadores que estiveram envolvidos possam ter esse espaço para manifestarem seus sentimentos e experiências na tragédia que marcou Santa Maria."
Assistente social Lia Teresinha Gonçalves Dani

Créditos: Fotos: Arquivo pessoal