O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) promoveu, na tarde desta sexta-feira, 14 de março, no auditório do Hospital Cristo Redentor, o I Encontro de Trabalhadores Cotistas Afro, que contou com a presença, na mesa de abertura do evento, do senador Paulo Paim. Desde 2003, o GHC desenvolve iniciativas de combate ao racismo direcionadas à área da saúde, por meio da Comissão Especial de Políticas de Igualdade Racial (Ceppir/GHC), responsável por atividades a partir de políticas afirmativas e de ações de combate ao racismo.
O senador Paulo Paim reiterou a necessidade do estado manter políticas afirmativas e compensatórias, como forma de corrigir a discriminação e reparar a desigualdade criada a partir da exclusão dos negros nos ambientes sociais, como escola e mercado de trabalho. “Infelizmente, o preconceito e a discriminação ainda são muito fortes no Brasil e no mundo. Recentemente, assistimos a cenas chocantes de racismo por meio do futebol. Primeiro no Peru, tendo como vítima o jogador Tinga, depois aqui no Rio Grande do Sul, com o árbitro de futebol Márcio Chagas da Silva e com o jogador Arouca, do Santos”, enfatizou o senador. Paim criticou a morosidade do Congresso para votar a política de cotas que, apesar do regime de urgência, ainda não foi a plenário. Também apresentou dados em relação à exclusão da população negra na sociedade. “Apenas 5% dos cargos de diplomacia são ocupados por negros e apenas sete dos 620 procuradores da república são afrodescendentes e, atualmente, não há no Brasil nenhum governador negro”, criticou.
O diretor técnico do GHC, Paulo Bobek, afirmou que a instituição já utiliza as cotas para afrodescendentes para o ingresso dos trabalhadores por meio de concurso público e que desenvolve ações afirmativas e de combate ao racismo. Já o diretor-superintendente, Carlos Eduardo Nery Paes, lembra que o GHC conta com 178 trabalhadores que ingressaram por meio das cotas raciais. “Este é um momento, em toda a história do GHC, em que temos o maior número de afrodescendentes ocupando cargos na instituição, inclusive cargos de chefia. Nós dispomos de políticas de saúde, assistenciais e de recursos humanos voltadas à população negra. Ano passado, recebemos pela primeira vez o selo de gênero e raça, em função de ser uma instituição pública que trabalha com políticas afirmativas e de igualdade”, explicou Nery, solicitando ao público que cantasse um "parabéns a você" em homenagem ao senador Paim, que estará de aniversário no sabado.
Durante o Encontro de Trabalhadores Cotistas Afro do GHC, foram realizados painéis sobre políticas afirmativas, com a participação de Edilson Amaral Nabarro, sociólogo, vice-coordenador da Coordenadoria de Acompanhamento das Ações Afirmativas da UFRGS, e de Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, professora emérita da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e conselheira da Fundação Palmares do Ministério da Cultura. O evento contou ainda com a apresentação da cantora Cláudia Quadros.
A política de cotas para afrodescendentes foi implementada no ano de 2005 e garante a reserva de 10% de vagas em todos os processos seletivos do GHC. “A proposta inicial dessa ação afirmativa começou com o ingresso dos negros nas universidades, porém, também é fundamental a inserção dos negros no mercado de trabalho”, esclarece Antelina Ott, coordenadora do Centro de Resultados Participação Cidadã, setor responsável pelas políticas afirmativas e inclusivas no GHC. A partir dessa política, hoje na instituição, há 178 cotistas ativos e as principais categorias de profissionais beneficiadas são enfermagem, nutrição e administrativo.
A solicitação do exame de eletroforese de hemoglobina (exame que detecta a anemia falciforme, doença mais prevalente em negros) durante o pré-natal de todas as gestantes atendidas no GHC passou a ser obrigatório a partir de fevereiro de 2012. “Durante o período de um ano, foram realizados 19.344 exames, uma média 806 por mês, e foram diagnosticadas 457 gestantes com o traço falciforme, gerando um percentual de 2,36% dos exames coletados”, informa Antônio do Amaral Batista, assistente técnico do Setor de Bioquímica do Hospital Conceição.
As ações realizadas pela comissão servem de exemplo para que outras instituições realizem ações semelhantes. A ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, afirmou que o GHC é referencia nacional em relação à saúde da população negra. O Troféu Deputado Carlos Santos, entregue durante sessão solene na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, e o Prêmio Estadual de Direitos Humanos, concedido pela Secretaria Estadual da Justiça e dos Direitos Humanos, na categoria Garantia dos Direitos da População Negra, é o reconhecimento do trabalho desenvolvido pela comissão.
A Ceppir/GHC comemora dez anos de existência e, nessa última década, são observados alguns avanços como o Estatuto da Igualdade Racial, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra entre outras ferramentas de promoção da igualdade racial. As reivindicações do movimento negro que contribuíram e continuam lutando pela igualdade de oportunidades e direitos da população negra foram fundamentais para a criação dessas ações que têm como objetivo a reparação das perdas históricas provocadas pela discriminação. “A comissão realiza ações que consistem em implementar políticas afirmativas e inclusivas que contribuem para a promoção da saúde, observando os princípios básicos do SUS e as especificidades étnicas dos trabalhadores e usuários do GHC”, explica Ludmila Marques, coordenadora da Ceppir/GHC.
Créditos: Alexandre Costa e Renata Lopes