Como ponto de partida, a literatura. O resultado: afeto, união e apoio. A iniciativa que começou com uma oficina literária, organizada pelo psiquiatra da Saúde Comunitária do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), Luiz Ziegelmann, e o escritor Luís Roberto Amabile, aos poucos, foi tomando a forma de um livro, o Contos Sem Tarja Preta. O projeto uniu 10 usuários de grupos terapêuticos do HNSC, acompanhados por Ziegelmann, e propôs uma alternativa de tratamento complementar envolvendo diferentes formas de arte, com o enfoque maior na escrita. Através da leveza dos contos, os autores escreveram sobre a vida deles, a partir de uma ótica diferente. Lançado em 18 maio de 2015, pela Editora Bestiário, o livro agora será relançado na feira do livro de Porto Alegre, dia 31 de outubro, às 14 horas, no Memorial do Rio Grande do Sul (Rua Sete de Setembro, 1020, Praça da Alfândega)
Iniciada em 2013, a oficina literária, que durou 10 meses, reunia os pacientes com os organizadores sempre nas sextas-feiras. O primeiro dia do projeto foi uma sexta-feira chuvosa. Para começar os exercícios, a proposta foi escrever sobre o tempo e as lembranças que cada um tinha em relação à chuva. A partir desta construção, foram elaborados contos e, cada vez mais, a literatura foi fazendo parte da vida dos autores.
Outra ideia de Luís Roberto e de Ziegelmann para a oficina foi trazer convidados de outras áreas como cinema e teatro para conversar com o grupo. Com novas perspectivas, a oficina se transformou em um espaço de produção de cultura e vida. Calcada no afeto, na sensibilidade e na criação, a oficina foi gerando frutos e agregando no tratamento dos pacientes: “Este espaço foi muito permeado pela troca de sentimentos e a troca das pessoas. Um espaço muito criativo, onde um ajudava o outro, contava suas experiências. Assim, se aumentam as escutas e as trocas compartilhadas”, explica.
Para os autores do livro, tudo foi muito inesperado. Alguns gostavam mais de literatura, aproveitando a oportunidade pra se reaproximar do hábito de escrever e outros viram no projeto a possibilidade de conhecer outra forma de expor os sentimentos. Ilce Cristina Santos, uma das autoras do livro, encontrou na literatura uma forma de se sentir melhor: “Hoje eu me olho espelho e pergunto: onde está aquela mulher? E ela morreu. Hoje, eu consigo me amar. Antes, eu sentia muita dor de cabeça, mas escrevendo eu comecei a abrir minhas gavetas. A literatura me trouxe isso, o entendimento dos problemas que eu tinha e aí eu busquei e encontrei a paz”, explica Ilce.
Palavra dos autores sobre o projeto:
Raoni A.:
“Me fez gostar de ler livros, entender mais a literatura. Eu era muito preguiçoso e a oficina me ajudou a voltar a ler. E também a amizade e a compreensão. Melhorou minha vida”.
Cladiomar de Sá Andrade:
“Há muito tempo eu sou apaixonado pela escrita, algumas vezes tentei escrever alguns contos e poesia, mas nada sério. Essa oportunidade foi uma experiência maravilhosa. Foi uma experiência legal porque vi que todos tinham o que colocar no papel. O livro me proporcionou meu nome não estar apenas na certidão de nascimento”
Jane Sinara Alenavicius:
“Com o grupo literário, eu descobri que tenho um lado do humor que eu posso usar na minha doença, que eu posso me expressar no papel e desabafar. Eu achava que escrever era só pra quem tivesse uma formação, mas na verdade não importa. Aprendi a carregar um caderninho pra anotar as coisas que eu acho bonitas e ouço das outras pessoas, isso me ajudou muito na minha doença”
Jeanini Cauduro Figueiró:
“Pra mim, foi repensar mais na minha vida, lutar melhor contra a depressão. Os encontros ajudavam coma união, o afeto, tirar meus medos e minhas raivas. Me ensinou a escrever com ou sem humor, para eu viver melhor. Foi um grande desafio
Susi Ane Oliveira:
“O livro foi uma questão de superação. Eu superei aquilo que eu achava que não era capaz de superar”
Rosângela Maria Pereira:
“Eu sempre gostei de ler e escrever, mas tive um bloqueio devido à depressão e com a oficina de literatura, eu voltei a ler e vi que eu podia fazer tudo que eu podia fazer antes. Foi ótimo! Eu revi os problemas que eu tinha e escrevendo, com humor, com alegria. A literatura me ensinou a evitar os problemas, pois os problemas é que levam à doença. E assim, eu melhorei bastante.”
Carlos Alberto:
“Com a doença, eu achei que eu não tinha mais capacidade de fazer nada e que eu tinha morrido com ela. Mas com a oficina literária, com afeto e com esses encontros, descobri que por trás da doença ainda existe vida e inteligência. E a gente, com afeto e união, conseguiu fazer algo que parecia impossível para nós. Me ensinou a lidar com a depressão e controlar a ansiedade. Foi uma experiência muito boa mesmo”
Silvia Nara Gonçalves:
“Eu nunca imaginei que eu pudesse escrever alguma coisa, eu tava passando por um momento difícil. Todos nós estávamos passando por algum problema. Eu estava muito sensível e sempre tive muito afeto de todos, me ajudaram muito. Foi uma experiência muito bonita, pelo amor que a gente teve uns com os outros”.
Ilce Cristina Santos:
“O projeto representou o aprendizado. Eu tirei muita força do grupo, eles me apoiaram muito. E a questão da escrita, eu fui me descobrindo em relação aos meus medos, do que eu tinha medo e como eu poderia lutar contra eles. Botando o sentimento no papel, é diferente, depois, quando tu lê, tu começa ver que o bicho não é tão grande. E assim, eu matei meus bichos”.
Alember Bica Duarte:
“Esse projeto resgatou nossa autoestima, nos encorajou e nos deu força para continuar na batalha”.
Créditos: Giovanni Andrade