Buscando inovar, ampliar e qualificar o acesso à saúde para a população de rua, há seis anos, o Consultório na Rua do Serviço de Saúde Comunitária do Grupo Hospitalar Conceição (SSC/GHC) entrou em funcionamento. No início, um contato limitado, dificultado pela resistência dos usuários em receber assistência, mas, ao longo do tempo, isso foi trabalhado e um vínculo foi criado. A terapeuta ocupacional Milene Calderaro Martins explica que, mesmo depois de anos, a relutância é comum: “Isso sempre acontece, o atendimento depende muito do dia e do humor do usuário. Nós levamos tempo para construir uma relação de confiança, é um trabalho que exige paciência. Mas hoje, eles já vêm até nós, nos conhecem e sabem que estamos à disposição deles”, diz Milene.
Único Consultório na Rua que atende a Zona Norte de Porto Alegre, tem cadastrado cerca de 1.300 pessoas e realiza em média 200 atendimentos por mês. Para prestar esses atendimentos, o GHC disponibiliza uma equipe multidisciplinar composta por enfermeira, psicóloga, assistente social, terapeuta ocupacional, técnica de enfermagem e residentes.
O consultório realiza atendimento itinerante por meio de uma unidade móvel que se desloca conforme a necessidade do usuário. “Nós costumamos visitar locais fixos, então os usuários já sabem quando nos esperar e, muitas vezes, não saem, justamente para nos esperar, mas há casos em que o usuário nos chama e aí nós vamos ao encontro dele ou marcamos um dia para realizar o atendimento”, explica a enfermeira do Consultório, Carla Félix.
A abordagem das equipes aos moradores é informal e despojada, um habitual sorriso, aperto de mão ou abraço. Geralmente, o contato ocorre em praças e parques, onde é identificado o grau de cuidado que o usuário necessita. A partir disso, se preciso, é definida a instituição de saúde para a qual ele será encaminhado, isto é, hospital, unidade de saúde, unidade de pronto atendimento (UPA) ou centro de atenção psicossocial (CAPS). A equipe auxilia também em internações de usuários de álcool ou drogas. “É importante ressaltar que todos os encaminhamentos que nós fazemos ocorre somente quando o usuário pede”, diz Carla Félix. O único critério é que a instituição de saúde seja próxima ao local onde o morador costuma ficar por mais tempo.
Saúde como prioridade
Segundo Carla, o serviço busca valorizar os diversos aspectos de saúde. “Quando vemos a proposta inicial do consultório na rua, pensamos que saúde é só aquele atendimento primário, onde ocorre a identificação da doença e a prescrição de um tratamento, mas nós fazemos outros encaminhamentos, como quando o usuário precisa de um alimento. Não é nossa função alimentá-lo, porém, aquela refeição que dermos será, muitas vezes, a única dele no dia. Alguns usuários em tratamento necessitam estar com alimento no estômago para tomar um medicamento”, salienta Carla.
Entre os trabalhos desenvolvidos pela equipe, está o encaminhamento para a confecção de novos documentos, quando o usuário solicita ou se necessário para a retirada de medicamentos. “Tudo que ajude a pessoa a se organizar na vida dela a gente considera saúde”, frisa a enfermeira. Para Carla, reduzir danos é um dos objetivos primordiais do atendimento. “Muitas vezes, o usuário não consegue largar as drogas, mas ele consegue reduzir, passa a utilizá-la apenas à noite e, com isso, consegue trabalhar durante o dia e ter uma fonte de renda, isso é o que chamamos de redução de danos. Isso, para nós, é um grande progresso”, ressalta.
“O atendimento que realizamos é às vezes o único atendimento que esses usuários recebem”, afirma Milene Calderaro Martins. Morador de rua há 16 anos, João da Silva Lacerda, de 50 anos, recebe atendimento do Consultório na Rua desde que o serviço iniciou as atividades. Ele conta que não costuma ligar para pedir auxilio e nem ir a serviços de saúde. “Eu sei que elas sempre vão vir quando eu preciso, elas sempre me encontram”, afirma João.
“Mesmo sem documento, é importante que o morador de rua consiga acessar o serviço de saúde sem qualquer impedimento, afinal, é um direito de qualquer cidadão, é uma política pública”, finaliza Carla Félix.
Créditos: Graziella Silva.