Múltiplas reinternações de crianças no Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro, foi o que levou a pediatra Vera Cordeiro a fundar a Ong Saúde Criança em 1991. A partir de uma metodologia pioneira e multidisciplinar, a organização passou a prevenir a reincidêncida das internações ao proporcionar melhores condições de saúde a famílias em extrema vulnerabilidade social.
Com o apoio de voluntários, profissionais de saúde e instituições nacionais e internacionais, a Ong começou a oferecer doações de medicação, serviço social, advocacia, reforço escolar, renda familiar por meio de cursos para geração de renda e reestruturação de moradias.
Em 2010, a Saúde Criança se tornou uma franquia social. Atualmente, essa franquia tem nove unidades no Brasil, sendo uma única no Rio Grande do Sul, situada em Porto Alegre, que, por meio de uma parceria com o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), atende exclusivamente crianças encaminhadas pelo Hospital Criança Conceição (HCC).
Qualquer funcionário do HCC pode encaminhar crianças da internação no momento da alta hospitalar, obedecendo aos seguintes critérios: viver na região metropolitana de Porto Alegre, ter doença crônica, ter múltiplas internações e fragilidade social. Assim, a família é convidada a participar. Hoje, 45 famílias são atendidas, totalizando cerca de 250 pessoas.
Para Sérgio Dório, presidente da franquia regional e coordenador da Recreação Terapêutica do HCC, a Saúde Criança é muito mais que uma Ong, é um modelo de atendimento, que, assim como o SUS, trabalha em redes para ampliar a comunicação entre o serviço de saúde e a comunidade.
O atendimento oferecido pela organização leva em conta que as internações não acontecem unicamente por razões clínicas, mas também por motivos ligados à relação da criança com a família e com o ambiente em que ela vive. Ao construir uma estrutura adequada à família, diminuem os disparadores que geram os sintomas da internação.
“Exemplo mais clássico: paciente asmático, oito internações por ano. Ao fazermos a visita domiciliar, podemos ver que a casa não é arejada, está toda mofada e a família não utiliza as práticas de saúde de combate à asma. O lugar tem tapete, animal de estimação dormindo na cama, etc. Fizemos a reforma da casa e ensinamos as práticas de saúde para família. Então essa criança, que tinha oito internações por ano, para de internar”, explana Dório.
De 2013 a 2015, o trabalho da Ong Saúde Criança foi objeto de pesquisa da universidade de GeorgeTown. Foi constatada uma redução de 90% das internações infantis, assim como o aumento na renda familiar, dos anos de escolaridade e da autoestima das famílias atendidas.
Isso diz respeito também ao espaço de formação oferecido todas as terças-feiras às famílias em salas da Instituição de Ensino São Judas Tadeu. No local, as mães têm atendimento de Psicologia e de Serviço Social, além de aulas sobre práticas de saúde e geração de renda. As crianças participam de atividades lúdicas com os socioeducadores.
Enquanto tiverem vínculo com a Ong e participarem desses espaços, cada família recebe um rancho mensal, um custo em remédio, em fralda, em leite, alimento e passagens, caso não tiver como se deslocar. No final de dois anos, se espera que a família esteja em ordem para seguir em frente, pois é preciso ter um fluxo de entrada e saída na organização.
O drama das reinternações
“Era só hospital, hospital e hospital”, afirma Bárbara Taís Pinheiro Joaquim, sobre o primeiro ano de seu filho, Cauã, que, devido a diversas complicações, como problemas cardíacos, epilepsia, celíase, intestino irritado e intolerância à lactose, já havia internado 12 vezes no HCC.
Ela foi indicada então por uma assistente social para participar da Saúde Criança. No início, relutou, disse que não precisava. Porém, acabou aceitando, pois, a cada internação, chegava a passar três meses indo diariamente ao hospital. “Se tu vives só disso, tu acabas esquecendo de ti e, se tu se esqueces de ti, tu não prestas atenção na criança também. Eu vivia sufocada, às vezes eu chorava sozinha porque não tinha para quem desabafar”, conta Bárbara sobre os períodos de internação.
Após o seu ingresso na Ong, a Saúde criança entrou com auxílio de cesta básica e cesta médica. O que ajudou a família, pois Cauã precisa tomar 16 medicações de uso contínuo, totalizando um custo de 800 reais por mês.
Por meio do espaço de formação, Bárbara teve acesso a atendimento psicológico e social e realizou o curso “Mulheres em Construção” e um curso de Informática. O próximo da lista, segunda ela, é o curso de Padaria.
As internações de Cauã foram diminuindo significativamente desde que entraram na Ong. Já faz um ano que ele não interna, passando a consultar de seis em seis meses no HCC. Também por orientação das educadoras, Bárbara decidiu colocá-lo em uma creche para ajudar seu desenvolvimento social e afetivo
Para a assistente social da Saúde Criança, Beatriz da Fé Reis, o caso de Bárbara mobiliza a equipe a seguir com seu trabalho, dado que ela chegou na Ong em um momento crítico da vida dela e conseguiu dar a volta por cima e desenvolver habilidades e autonomia.
Conforme explica, as atividades que ajudaram ela e muitas outras mães que vêm sem nenhuma perspectiva de visualizar o futuro ou alguma melhora consistem na troca de experiências, no empoderamento, em palestras informativas sobre saúde e na qualificação para o mercado de trabalho, que, em parceria com bancos sociais e empresas, encaminham oportunidades a elas. “Nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida não só da criança como de todo o núcleo familiar”, comenta Beatriz.
O atendimento pedagógico, ministrado pela coordenadora da equipe educativa, Ivone Terezinha Nichele, ajuda na escola e nos hábitos das crianças. Ivone conta que o roteiro do dia tem brincadeiras, meditação, música e contação de histórias. Além de um trabalho integrado com as mães e com as equipes.
Como ajudar
A Ong Saúde Criança Porto Alegre conta com duas salas alugadas em um centro comercial na rua Adão Baino, três funcionários e o apoio de cerca de 50 profissionais voluntários. Atualmente, se mantém por um brechó solidário, que arrecada roupas e reverte o valor para as despesas, por pessoas dispostas a serem amigas da Saúde Criança, seja por doações mensais ou esporádicas, e também por meio do Funcriança, que permite, sem nenhum valor adicional, que as pessoas destinem até 6% de seus impostos de renda a projetos de assistência a crianças.
Caso queira ajudar, mais informações podem ser obtidas no site: www.saudecrianca.org.br/portoalegre
Créditos: Lorenzo Leuck